Uma das causas da ansiedade ocorre quando a inteligência não consegue dar resposta a uma pergunta ou contemplar a solução concreta para determinada situação. A ansiedade começa a surgir quando começamos a buscar a resposta para algo que está no futuro, mas que não é, a princípio, solucionável. Por exemplo: “Minha esposa chega em casa do trabalho, todos os dias, às 18h. Já são 21h, ela não chegou, não atende o celular. O que aconteceu?”. Daí, a pessoa começa a ficar ansiosa, possivelmente com pensamentos catastróficos.

Este “o que aconteceu”, a princípio, não tem resposta. Não é solucionável. Diante do desconhecimento do futuro, a pessoa se sente ansiosa. “Estou enfrentando um processo de restauração matrimonial, será que dará certo?”. É não só o desconhecimento do futuro o que gera a ansiedade, mas o desejo de controlá-lo.

Se eu lhe perguntar – “Apesar de o casamento estar passando por enormes dificuldades, se você soubesse que, daqui a três anos, tudo estaria ordenado entre vocês dois, você continuaria a lutar por essa restauração?”. É provável que a resposta seja “sim”, porque o futuro passa a ser, nessa hipótese, conhecido. O desconhecido que permanece inacessível à inteligência é um fator gerador de ansiedade.

Quando este processo se inicia, quando o futuro se mostra aterrador, incognoscível, cada vez mais a pessoa busca evadir-se do presente, pois, como é próprio do processo ansioso, o medo nos retira do presente e nos lança ou em ruminações acerca do passado, ou em elucubrações a respeito do futuro – havendo, em muitos casos, transições contínuas entre passado e futuro. Como a tensão vai se tornando intolerável, abrem-se portas para fugas da tensão: pornografia, drogas, álcool, distanciamento afetivo do cônjuge, desencanto valorativo (aquela pessoa que entrevê bens a serem conquistados, mas se julga incapaz de obtê-los, por não suportar a ideia de ter de empregar os esforços necessários, os quais julga enormes – muitas vezes, isto é um mecanismo para evitar situações em que poderia falhar e que, em sua concepção errônea, provariam o desvalor de si), processos compensatórios calcados numa ficção de superioridade pessoal, pseudo-autossuficiência, etc.

“Fugir do agora” é a solução (falsa) para confrontar um processo ansioso. O que causa a ansiedade é esse desejo angustioso de fugir da realidade.

O que é, então, ansiedade? – Ansiedade é uma necessidade aguda de fuga da realidade, de fuga do momento de agora, que ocorre pelo medo gerado pela incognoscibilidade do desconhecido, uma vez que a inteligência não contempla nenhum tipo de solução satisfatória para os problemas do agora, ainda que vislumbrados numa perspectiva futura.

Como a inteligência da pessoa não contempla uma solução possível diante do desconhecido, ela se aferra às imaginações. E o imaginário mantém o indivíduo preso no processo ansioso. Não só preso, mas a imaginação intensifica a ansiedade, porque é pela imaginação que a pessoa se evade do presente e passa a transitar entre passado e futuro (com criações, muitas vezes, fantásticas, catastróficas etc.).

2 - A FRUSTRAÇÃO DA FÉ METASTÁTICA ENQUANTO GERADORA DE ANSIEDADE

Pensamentos e imaginações não modificam a realidade. O que modifica a realidade é o ato humano – a inteligência discerne o real, e você, através da vontade, a qual busca o bem discernido pelo intelecto, AGE no real. Coisas como “lei da atração” são mentira, porque “pensar positivo” não é o suficiente para modificar nada da estrutura concreta da realidade. O que modifica algo na realidade é o ato humano. “Pensar negativo” não “atrai coisas ruins”, mas debilita a volição, intensifica imaginações catastróficas, desequilibra as emoções, altera o humor, gera comportamentos desadaptativos e, ao fim e ao cabo, traz prejuízos para a capacidade do indivíduo de agir na realidade.

Muitas pessoas têm “fé” de que as coisas darão certo. Porém, fé não é isto, não é um “crer positivo” ou um “crer negativo”. Fé verdadeira é crer naquilo que não se vê, que não se toca, mas que se CONHECE; portanto, a real fé tem de, NECESSARIAMENTE, provir da RAZÃO. Se a fé não descende da razão, ela não é verdadeira fé.

Já o “pensar positivo” não é conhecer, pela inteligência, absolutamente nada. O tal do “pensar positivo” é o que se chama de fé metastática. É um desejo de que as coisas deem certo. A fé metastática é uma mera confiança não naquilo que se conhece efetivamente, mas naquilo que se desconhece.

Exemplo: “Se eu fizer tudo certo nesta vida, se for correto moralmente, se não prejudicar o próximo, amar meu cônjuge, cuidar bem dos meus filhos, pagar meus impostos, obedecer aos mandamentos de Deus, tudo dará certo para mim, nunca serei prejudicado ou passarei por injustas dificuldades”. Ou: “Se eu treinar arduamente, fizer minha dieta, for regrado, disciplinado, ganharei inevitavelmente o campeonato”. Quem lhe ensinou isto? Isto não é CONHECIMENTO, é IMAGINAÇÃO. Fé é fruto do que a INTELIGÊNCIA CONHECEU, e não daquilo que sua FANTASIA IMAGINOU.

Crer como certo naquilo que sua fantasia imaginou se chama fé metastática, porque, pelo fato de você fazer tudo certo, como no primeiro exemplo, não impede de que coisas ruins aconteçam a você. Há pessoas que creem nisto, e quando a realidade se prova contrária a essa fé metastática, a pessoa se afoga em ansiedade, em desespero, em revolta, em angústia., em profundo desconsolo. E tudo porque ela creu em algo não baseado naquilo que ela conhece pela inteligência, mas naquilo que ela desconhece – fé metastática. Quando a fé metastática é frustrada, a pessoa fugirá da realidade, fugirá do momento de agora, pela ansiedade. Quando a consequência não é a ansiedade (ou somente a ansiedade), pode se iniciar uma atitude extremamente cínica diante da vida, ou um desencanto (que leva à depressão), rebelião, fragilidade emocional acentuada, obsessões etc.

É preciso tirar de dentro de nós essa fé metastática. Uma esposa que está servindo, se esforçando ao máximo para restaurar o casamento, e que acredita que, pelos seus esforços, o marido mudará de conduta, está se enganando, pois ela não sabe se ele mudará, a despeito de todos os esforços empregados. Quando ela percebe que, apesar de tudo o que fez, o marido não mudou, até piorou, não somente afunda em ansiedade, mas, muitas vezes, em depressão, pois os esforços dela não estavam baseados em um verdadeiro conhecimento acerca da realidade, mas neste tipo de fé ilusória, meramente imaginativa. Só se combate a fé metastática com a fé real. Neste mesmo exemplo, é preciso que tal esposa se fundamente naquilo que ela realmente conhece:

- Fulana, você está se esforçando para restaurar este casamento?

- Estou, mas não sei se meu marido vai melhorar, se ele será mais amoroso comigo, se voltará a me tratar bem. Eu faço de tudo, ele deveria corresponder [fé metastática], mas ele não corresponde...

- Não é isto o que estou perguntando. Desde que você realmente começou a servir, por amor, sem esperar nada em troca, você se tornou uma pessoa mais atenta e disposta aos outros?

- Verdade, me tornei.

- Você passou a cuidar melhor dos seus filhos?

- Passei

- Está tratando melhor os seus pais?

- Sim

- Está trabalhando com maior desprendimento, querendo o bem da empresa na qual trabalha e de seus colegas, mesmo que eles não entendam isso e nem se importem?

- Estou

- Você começou a orar mais, e por meio da oração você se tornou mais paciente, mais amorosa com os outros, mais abnegada?

- Me tornei

- Isto, então, é um resultado concreto dos seus esforços. Você realmente está se tornando uma pessoa melhor, muito embora se tornar uma pessoa melhor não necessariamente fará o seu marido se tornar quem você deseja que ele se torne. Porém, este é um conhecimento verdadeiro que você tem, e nele você pode acreditar [fé verdadeira, calcada no conhecimento]

É preciso que se entenda que o que você está fazendo tem resultado sim, porém não o resultado metastático que você gostaria. É preciso que você retire de dentro de você esse resultado metastático, pois é ele que causará, quando testado e reprovado (porque sem fundamento na realidade), a doença chamada depressão.

Importante: A DEPRESSÃO SURGE, MUITAS VEZES, DA NÃO SATISFAÇÃO DA FÉ METASTÁTICA.

Quando a fé metastática não encontra resolução, a frustração pode ser tamanha que a pessoa cai, profundamente, em depressão. É quando você se ilude, através da fé metastática, com o pensamento imaginativo de que as coisas vão funcionar, mas elas não funcionam, não acontecem do jeito de que você gostaria. O que sobra para você? UMA SAUDADE DE ALGO QUE VOCÊ ACREDITOU QUE FUNCIONARIA.

Um dos principais gatilhos de depressão, por exemplo, é você acreditar que o amor que você doou deve necessariamente retornar para você (isto é uma sugestão diabólica).A depressão, quase sempre, tem esse pano de fundo. É o vazio que vem das seguintes fés metastáticas:

“Achei que se eu fosse uma boa esposa, um bom marido, uma boa mãe, achei que se eu rezasse, que se eu fosse fiel a Deus, meu filho não teria essa doença grave, mas ele teve”.

“Achei que se eu fosse um bom marido, minha esposa não me trairia, mas ela me traiu

“Achei que se eu trabalhasse direito, ficaria rico, mas não fiquei

“Achei que se eu fizesse todos os esforços para reunir a família, todos viveriam em harmonia, respeito e amor, mas isto não aconteceu

“Achei que se eu fosse gentil com todos, teria muitos amigos, mas não tive

A ansiedade e a depressão serão, muitas vezes, consequências dessa fé metastática, pois você colocou sua fé em algo que, de fato, poderia não acontecer, e quando não acontece, suas crenças são rompidas, fragmentadas, e você perde a orientação de sua vida.

A partir daí, você se evade da verdade de sua vida, pois a verdade deixa de importar.