Os leitores que tiveram a oportunidade de estudar a última publicação desta página (“Que é caráter? – Legalidade e Valoração”), depararam-se com um comentário passageiro a respeito da insatisfação. Amparando-me no texto do psiquiatra Rudolf Allers, escrevi que a insatisfação se abre no peito do indivíduo quando ele, ao estabelecer uma comparação valorativa entre uma situação concreta e uma situação possível que deseja realizar, acaba por encontrar-se, por qualquer motivo, impossibilitado para a ação, ou, pelo menos, tal ímpeto de consumação valorativa é abafado dentro de si, seja por desorientação interior, seja porque lhe escapam os meios efetivos de realizar apropriadamente a ação.
A insatisfação, por conseguinte, tem que ver, diretamente, com o problema caracterológico, uma vez que a lei de preferência dos valores, através da qual um homem orienta sua conduta, preferindo realizar determinado valor em detrimento de outro, é aquilo em que se constitui o caráter de fulano ou de beltrano. Quando o ser humano, de acordo com sua formação caracterológica, é incapaz de realizar valores, sente-se frustrado. Se a incapacidade de realização valorativa se torna habitual, gera-se uma insatisfação crônica que pode levar alguém a quadros depressivos clinicamente verificáveis segundo critérios diagnósticos de manuais como o DSM.
Qualquer terapeuta ou psicólogo que já realizou atendimentos clínicos indubitavelmente se deparou com pacientes cuja dor existencial é de árdua apreensão a nível simbólico e verbal. Ao tentar descrevê-la, os pacientes mostram-se incapazes, digamos assim, de acertar o ponto. Padecem de uma sensação difusa de mal-estar, não localizável, indefinível, uma espécie de desgosto introspectivo, semelhante a um tédio rancoroso, mal-humorado. Trata-se, pois, verdadeiramente, de uma angústia derivada da insatisfação com a própria vida, da insatisfação de não conseguirem se tornar quem devem ser.
Como pontuei, tal insatisfação é um problema de ordem caracterológica. É demasiado importante que o psicólogo compreenda as razões, pelo menos gerais, desse mórbido movimento do espírito. A insatisfação crônica com a própria vida é uma enfermidade caracterológica pelo fato de que, como explicado, o caráter é a lei de preferência dos valores por meio da qual alguém orienta toda sua conduta. O agir humano é sempre baseado na realização de um valor, e, portanto, numa autoafirmação de si enquanto sujeito possuidor de valor próprio. Realizar valores através da ação humana aumenta o valor próprio do indivíduo que os concretiza.
Rudolf Allers escreve, num artigo, que a essência da vida humana é a conversão de potências em atos. Ensina-nos nosso autor que o verdadeiro movimento da vida, aquilo que a impulsiona e a mantém em seu curso sadio, é uma tensão entre valores já realizados e valores ainda por realizar. Em um dos polos, possibilidades valorativas; noutro polo, valores realizados. Tais valores por realizar permanecem num estado de possibilidade no âmago da pessoa. São uma como “pendência valorativa” a qual, como dito, fornece a cada homem e mulher o impulso necessário para que a vida se mantenha em curso.
Uma pessoa cuja trajetória existencial seja sadia é aquela que transforma as possibilidades de valor intrínsecas a si em valores efetivos, em valores realizados. Se o leitor bem se recorda, no texto passado descrevi o que Allers intitula de ato de apropriação, que nada mais é do que a afirmação interior que nos leva a agir diante de uma provocação do Não-Eu para a realização de um valor. Quando este ímpeto é abafado ou impossibilitado, surge a insatisfação. Quanto menos realização valorativa, mais insatisfação, até o ponto em que há adoecimento a nível existencial quando a insatisfação valorativa se torna um estado crônico de uma biografia individual qualquer.
É preciso que nós, psicólogos e terapeutas, na clínica psicológica, nos atentemos quando o paciente testemunha de si uma insatisfação habitual. Isto quer dizer que a tensão própria da vida, ou seja, a tensão entre possibilidades valorativas e valores realizados, a conversão de potências em atos, está num estado de constante declínio. O caráter, que é essa lei de preferência dos valores por meio da qual alguém orienta sua conduta, desvia-se cada vez mais de uma adequação aos valores objetivos, quer por incapacidade do indivíduo de realizar valores, quer por desorientação cognitiva da hierarquia valorativa.
O homem insatisfeito é aquele em que as possibilidades valorativas intrínsecas não encontram correspondência com a cadeia valorativa extrínseca e objetiva da realidade. A meu ver, isto é, propriamente falando, a essência da insatisfação.
