Assim como a atitude de estabelecer demandas aumenta o risco da decepção, como quando a gente acredita que as coisas que planejamos devem concretizar-se perfeitamente para que obtenhamos a pequena porção diária de felicidade que julgamos ser de direito próprio, assim também a atitude de olhar para o outro e desejar que este emule um modelo de personalidade ideal causa a frustração tanto daquele que projeta sobre o outro o ideal quanto sobre quem tal ideal é projetado.
A esposa que foi agraciada na infância e adolescência com a felicidade de ter, na figura do pai, um verdadeiro exemplo de amor zeloso, protetor e caritativo, tanto para com ela como para com a própria mãe, caso não reflita seriamente a respeito da unicidade e irrepetibilidade da pessoa humana, feita à imagem e semelhança de Deus, poderá, ainda que inconscientemente, projetar de modo desordenado sobre o marido a imagem paterna tão acalentada dentro do coração. Indubitavelmente, haverá frustração e, consequentemente, aquele típico criticismo sorrateiro nas relações cotidianas, uma vez que o ideal projetado nunca há de conformar-se ao cônjuge.
É a esposa que habitualmente critica o marido, julgando que o próprio pai já teria resolvido determinado problema muito facilmente, ou que em determinada situação agiria desta ou daquela forma. Quando ela começa a constantemente externalizar isto ao esposo, e se tais manifestações comparativas se tornam corriqueiras, haverá, por parte dele, mágoas, e talvez a pior de todas – as mágoas caladas, responsáveis por gerar tantas brigas, discussões e má vontade de um para com o outro, ocultando-se nos silêncios da alma. As mágoas que se calam dificilmente são percebidas pelo próprio magoado como as reais causadoras de muitos atritos domésticos.
Queira ou não, o esposo julgará que sua mulher deseja que ele se torne uma segunda versão do pai dela. Pior: que o local de verdadeira admiração no coração da esposa sempre estará ocupado pelo pai, e que a ele, ao esposo, resta apenas uma admiração secundária, caso consiga assumir com maior ou menor excelência, digamos assim, o papel desempenhado pelo genitor.
Ao marido, esta é uma situação demasiado humilhante. Na verdade, para qualquer pessoa; todavia, para o cônjuge, a dor é mais pronunciada, uma vez que não poderá deixar de avaliar que a pessoa com quem se casou deseja, ao fim e ao cabo, que ele se torne quem não é e quem não pode vir a ser. Muito diferente é quando o cônjuge demonstra ao outro quem ele, segundo suas próprias possibilidades valorativas, pode e deve se tornar. Outra é, pela comparação insensata a indivíduos a quem admiramos ou julgamos admirar, querer que o outro seja menos ele – pois se trata disso, de ser menos quem se é e de quem se pode vir a ser.
Usei do exemplo de uma esposa em relação ao marido apenas porque foi o caso com que me deparei há algum tempo na prática terapêutica. Poderia, por óbvio, ser o contrário. O matrimônio é um poderoso laço de união entre homem e mulher – a intimidade que brota do colóquio anímico-corpóreo do casal é absolutamente intransferível a qualquer outro ser humano deste mundo; entretanto, a intimidade entre dois corações é delicada.
Nada de benéfico pode ser extraído da crítica comparativa (e por isso mesmo por demais depreciativa) ao cônjuge; pior ainda é quando a crítica se dá por meio do rebaixamento do valor próprio da pessoa irrepetível que é o outro, ao compará-la com alguém de maior perfectibilidade em tal ou qual esfera da vida, seja prática, seja moral, seja espiritual, seja intelectual etc. É preciso, no cotidiano, mirar o cônjuge com um olhar purificado. Jamais se dirija a seu esposo ou esposa quando seus olhos não estiverem luminosos, quando não estiverem purificados, principalmente em momentos sensíveis.
Olhos purificados são aqueles que miram o outro e nele veem o porquê de tê-lo, no princípio do relacionamento, verdadeiramente amado. Já a luz do olhar é a superação do hábito do convívio corriqueiro. Quando convivemos com alguém por tempo demais, tendemos a perder a gratidão por termos aquela pessoa em nossa vida, e o coração, porque os olhos perderam a luz da gratidão, vai esfriando e sucumbindo mais e mais no descolorido cinzento dos hábitos diários e triviais.
