O estilo de vida é aquilo que conduz o indivíduo a desenvolver as linhas diretórias descritas no texto anterior. A maneira pela qual alguém se aproxima das dificuldades da vida (e as interpreta) dependerá dos primeiros anos da infância, os quais formam padrões estáveis de comportamento, estimativas das situações, jeitos próprios de abordar problemas e de lidar com tarefas.

Entre os quatro ou cinco anos de idade, já houve, para a criança, a fixação duma concepção mais estável, profunda e duradoura do que esperar tanto de si mesma quanto do mundo, o qual é assimilado através de esquemas estáveis de apercepção – percepção que antecede a percepção propriamente dita, pois a apercepção é como que destituída do caráter analítico revelador das conexões internas das coisas captadas. Em razão dos esquemas estáveis de apercepção, as experiências do período infantil, antes sequer de serem aceitas, são interpretadas de acordo com algum sentido original dado à vida pela criança.

Há alguns elementos iniciais respectivos à formação do infante que fazem com que ele elabore, tão cedo, uma perspectiva do que a vida significa; todavia, tais elementos serão analisados em textos vindouros. São essas interpretações infantis as responsáveis por formar uma linha diretória, desde o início, na biografia da criança, em seus modos de significar e compreender as próprias experiências e da maneira como ela lidará com os problemas oriundos, ao longo de sua trajetória existencial, das três precípuas dimensões da vida tratadas até aqui – ocupação/vocação, social/amizade/, sexo/casamento/amor.

Malgrado o significado primário dado à vida pela criança seja enormemente equivocado, ainda que lhe traga sérias dificuldades, dores psíquicas e agonia pelo modo como ela lidará, através desse sentido original, com os problemas advindos da dimensão ternária anteriormente descrita, tal sentido incipiente, ou fundacional, não pode ser facilmente abandonado pelo indivíduo. Sentidos errôneos dados tão cedo à vida somente podem ser corrigidos, segundo Adler, pela reconsideração das situações em que a falsa interpretação (que leva a uma linha diretória egocêntrica) ocorreu, através de um reconhecimento do erro de interpretação e da reavaliação de toda a esquemática de apercepção.

A grande dificuldade nisso tudo realmente é a esquemática de apercepção, a qual é responsável por fazer com que as experiências do cotidiano, como pontua Adler, antes de serem aceitas, sejam interpretadas de acordo com o sentido errôneo dado à vida. Digamos que tal esquema de apercepção contamina, ao longo dos anos, o caráter do infante, com toda a multiplicidade de vivências diárias e escolhas valorativas que o constituem. O resultado disto é a cristalização de um estilo de vida. Adler frisa, muito acertadamente, que o indivíduo cuja linha diretória egocêntrica se formou a partir de um estilo de vida errôneo, baseado em esquemas de apercepção desviados, jamais alterará suas ações a não ser que suas interpretações a respeito da vida sejam modificadas.

Adler defende essa ideia argumentando que nenhuma experiência, em si mesma, é causa de sucesso ou fracasso caracterológico e biográfico. Não sofremos em decorrência do choque de nossas experiências – o chamado trauma -, contudo fazemos delas, das experiências, justamente aquilo que se adapta ao modelo interpretativo da vida. Não são as situações que determinam os significados que damos às próprias situações, mas somos autodeterminados pelos sentidos que damos às nossas experiências. Isto aqui é muito importante: o sentido que atribuímos às nossas vivências nos autodeterminará. O ser humano jamais experimenta circunstâncias puras, circunscritas em si mesmas.

O estilo de vida seria então, grosso modo, a cristalização duma esquemática aperceptiva que leva a criança a dizer: “A vida significa isto”. É do estilo de vida que emana a linha diretória, a qual será ou egocêntrica – responsável por inúmeras falências existenciais, como caracteres neuróticos, psicóticos, assim como perversões, delinquência, prostituição, adultérios etc. – ou a linha diretória orientada pelo sentido de comunidade, responsável pela formação de uma personalidade saudável, estável, capaz de servir ao próximo, de amar com retidão e de superar as dificuldades da vida com proficiência, coragem e fortaleza.

Em decorrência de tudo o que acima foi exposto, o psicólogo, no setting terapêutico, ao investigar a maneira como o paciente lida com o ternário de questões advindas dos problemas fundamentais da vida, poderá compreender a linha diretória que o orienta. Se é o egocentrismo sua linha diretória, é preciso captar o estilo de vida do paciente, ou seja, os esquemas aperceptivos por meio dos quais ele interpreta e significa suas experiências, fator que leva, ao fim e ao cabo, àquilo que ele entende ser o “verdadeiro” sentido da vida, o qual será, indefectivelmente, um sentido equivocado.

No próximo texto, aprofundaremos a questão do estilo de vida.