A primeira vez que li sobre o assunto pareceu-me a mim, no mínimo, inusitado: o medo como principal elemento de formação caracterológica. No entanto, em decorrência dos últimos textos que viemos estudando nesta página, a afirmação soa coerente. Desdobra-se toda a vida infantil, como aprendemos, na dicotomia entre insegurança/incerteza e segurança/certeza.
Frisei, em algum dos textos, o erro cometido por muitos pais que pretendem erradicar certa pusilanimidade de caráter dos próprios filhos aplicando-lhes mais medo através da exposição a situações em que a criança deveria, a princípio, reafirmar-se. Porém, o erro é claro: só há reafirmação do valor de si quando tal percepção é estabilizada na psique dos pequeninos. Do nada, nada se cria.
O medo de que tratarei aqui é aquele se que manifesta como traço habitual caracterológico e que recebe a designação de timidez. Essa palavra deriva do verbo latino timere – temer, recear. Não se trata apenas do receio de expor-se aos outros, como usualmente o termo é empregado. A pessoa de caráter tímido é aquela que ao longo da vida, paulatinamente, sufoca suas possibilidades de realização valorativa na estreita impressão aperceptiva de insuficiência de si, gerada na infância. É possível perceber o início dessa percepção de insuficiência, por exemplo, em crianças que, fora de casa, ao começar a lidar com a sociedade, se escondem atrás da mãe quando são convocadas a interagir com adultos ou com outros outras crianças mesmas.
Rudolf Allers sustenta que não há quaisquer desvios de caráter, seja em crianças, seja em adultos, que não há caso algum de conflito interior, que não há neuroses, que não há assombros existenciais vexaminosos, que não há falha infantil alguma ou quaisquer perturbações do valor de si, os quais não tenham, ainda que mascarado de muitas maneiras, o medo como causa primeira.
É preciso que entendamos bem: medo enquanto traço habitual do caráter. Não se trata aqui do medo meramente animal diante de situações em que há real risco para a vida. Se um funcionário que alimenta leões no zoológico cai dentro do covil das feras, sentirá medo, muito embora deverá senti-lo de modo que este o leve à ação efetiva de superar a situação perigosa. Se o medo paralisa o sujeito, trata-se, evidentemente, de timidez caracterológica.
O medo sempre se refere à percepção do mal. Este mal tem de ser, necessariamente, apreendido pela pessoa como futuro e, o mais importante, de árdua superação. Uma coisa é ter medo do assassino que lhe aponta uma arma nas têmporas – outra, bem diferente, é sucumbir existencialmente diante de uma barata plantando-se em cima de uma cadeira.
Escreve Rudolf Allers: “O medo é um sintoma infalível de toda inadequação às condições de vida que se apresentam. Mas ele é, apenas em parte, uma consequência dessa inadequação: na maioria das vezes, é sua própria causa primeira... Não é exagero dizer que o medo constitui o fundamento de todos os modos insatisfatórios de comportamento: casos inúmeros de dificuldades de educação mais ou menos expressos, orgulho, reserva, insinceridade e ‘criminalidade’ infantil”.
A incerteza é o mais conspícuo traço fundamental da existência infantil. Qual o correlativo da incerteza? O medo. Este, como dito, se manifesta quando a situação em que a pessoa está é percebida, real e objetivamente, como incerta, perigosa, insegura – ou, e aqui é que está a coisa, assim é julgada pela pessoa. Há um importante elemento cognitivo no medo, portanto. Se as apreensões cognitivas das situações estiverem demasiado deslocadas em relação ao perigo real que elas oferecem, não só maior será o medo, senão também haverá mais momentos que gerarão insegurança, a qual causa profundo prejuízo na consciência do valor de si.
Então, pelo que acima foi exposto, é possível descrever o medo como o resultado de uma deficiência cognitiva causada pela insegurança. E o que acentua a insegurança como traço principal da vida infantil? As vivências de depreciação. Quanto mais vivência de depreciação, mais intensa se torna a insegurança; quanto mais insegurança, mais incapacidade de julgar com reto juízo as situações; quanto mais incapacidade de juízo, maior será o medo como resultado.
É por isso que, apesar de o medo ser o resultado de uma deficiência cognitiva gerada pela insegurança, se diz, ao mesmo tempo, que ele é uma causa primeira, uma vez que o correlativo do medo é a insegurança como traço característico da experiência existencial infantil.
Nos próximos textos, continuaremos a analisar como o medo é o principal elemento de formação caracterológica deficiente. É do medo, por exemplo, que resultam qualidades extremamente desagradáveis nas crianças – logo, nos futuros adolescentes e adultos –, tais como mentira, orgulho e capricho.
