O primeiro laço de que Adler trata é a fraqueza do homem diante das forças cósmicas. É o indivíduo sobre a crosta terrestre, tendo de articular o modo de lidar com os poderes impessoais da natureza a partir de sua finitude (enquanto limitação das possibilidades de agir). É desejável que o desenvolvimento mental e corporal de cada ser humano, devido à mesma fraqueza congênita, seja como que uma resposta diante do problema da continuidade da espécie humana sobre esta terra.

Leva-nos, portanto, esse primeiro problema fundamental, à dimensão que Adler denomina de “ocupação”. Por meio de uma ocupação, o homem aprende a mitigar o poder impessoal da natureza e/ou superar, progressivamente, suas debilidades constitutivas. Por óbvio, há uma escala de importância nessa primeira dimensão – num nível mais baixo, fala-se de ocupação, num nível mais elevado, de vocação.

O segundo laço refere-se às questões de associação. A penúria constitutiva e o limite de ação de cada indivíduo tornam impossível a que o homem sobreviva completamente sozinho neste mundo. Isolados, desvinculados em absoluto da associação entre os semelhantes, pereceriam os membros da espécie humana. O bem-estar da humanidade depende da associação. Trata-se, aqui, da dimensão “social”. Mais uma vez: numa esfera mais baixa, fala-se de social, numa esfera mais alta, de “amizade” – e amigo, não me recordo onde li ou ouvi tal descrição, é aquele que consegue amar o destino do outro; ou, como diria C.S Lewis, amigo é aquele que se põe ao lado do outro e, juntos, em admiração, contemplam o mesmo objeto, amando-o ou reprovando-o.

Por fim, o terceiro laço é a questão da sexualidade. Seres humanos são, por natureza, sexuados – masculino e feminino (relevem-me o truísmo, porém vivemos em tempos de tragicômica insensatez). Para a preservação da vida privada e comum, para a preservação da espécie, é preciso que, a nível social, leve-se em conta tal realidade, cuja dimensão, num nível inferior, é a dimensão sexual, e, num nível superior, a dimensão do casamento e do amor.

A vida humana é uma articulação entre a ocupação-vocação, o social-amizade, o sexo-casamento-amor. Adler acentua que, para a Psicologia Individual, tanto as deformações da personalidade quanto seus ulteriores desenvolvimentos positivos estão circunscritos a essas três dimensões. Mais ainda: a resposta que cada indivíduo dá aos problemas oriundos dessas esferas revela, profundamente, o que ele entende pelo sentido da vida. Isto é tão importante porque o sentido que cada indivíduo atribui à vida modelará sua personalidade (ou, mais propriamente, seu caráter).

Adler exemplifica: um sujeito cuja vida amorosa é incontornavelmente infecunda, que não se esforça por aprimorar-se em sua profissão para melhor servir ao próximo (ou que nega o sacrifício exigido pela vocação) e que julga o contato com seu semelhante algo sempre doloroso e intolerável, tal sujeito, segundo o autor, a partir dos limites e restrições de sua vida, assume que estar vivo é algo difícil, perigoso, que a própria existência oferece exíguas oportunidades e inumeráveis derrotas. Interpreta-se a estreiteza do seu campo de ação do seguinte modo – para ele, a Vida significa: “Preservar-me contra frustrações, contra ferimentos emocionais, ensimesmar-me para recusar o serviço ao próximo, permanecer o máximo possível intocado”.

Tal personalidade imatura compreende que o sentido da vida é um sentido meramente privado, pois nunca se aproxima dessas três esferas (ocupação-vocação, social-amizade, sexo-casamento-amor) no intuito de trazer aprimoramentos para o outro, somente para si mesmo. Ninguém se beneficia das realizações e conquistas de tais personalidades egóicas, uma vez que seus empenhos e objetivos jamais alcançam seu semelhante, já que o objeto de interesse de tais indivíduos é, unicamente, eles próprios. Tais sujeitos estabelecem como objetivo de sucesso de suas vidas uma mera ficção de superioridade pessoal como linha diretória.

Todavia, um sentido privado não é sentido nenhum. O significado só é possível na intercomunicação. Imagine um idioma cujo sentido só seja compreendido por uma única pessoa. Seria destituído de qualquer “logos” tal idioma, pois suas palavras, articulações semânticas, sintáticas etc., privadas de um sentido comum captável, nem mesmo apontariam para aquele que o professa, senão apenas para sua insana e risível incomunicabilidade. Assim é o sentido da vida nesta terra, o qual, para ter real significado, para ser verdadeiro, jamais pode ser privado.

O psicólogo encontra nessa inicial descrição adleriana a respeito da formação da personalidade ferramentas terapêuticas para avaliar o desenvolvimento caracterológico do paciente. Como a pessoa que lhe vem em sofrimento relaciona-se com essas três dimensões? A partir da clarificação de sua conduta a respeito de sua ocupação, de sua vocação, de sua vida social, de como ele compreende, estabelece e mantém amizades, de sua vida sexual, de seu casamento e de modo como ele entende e manifesta amor, é possível que o psicólogo comece a vislumbrar com qual tipo de personalidade está lidando.