Na obra Psicologia do Caráter, Rudolf Allers defende que todo comportamento humano deve ser considerado, por natureza, ação e realização e que há, no caráter, uma certa coerência, pois determinados traços secundários seguem-se a determinados traços primários. Em qualquer ação humana participa o homem inteiro; logo, em teoria (embora na prática isto não funcione assim, conforme frisa Allers), a avaliação atenta de uma única ação humana bastaria para manifestar ao observador perspicaz todo o caráter daquele que age.

É como expressa o próprio Goethe, em frase que Allers cita em sua obra: “Após ouvir falar um homem durante um quarto de hora, posso deixá-lo falar durante duas horas”. Goethe era um desses observadores perspicazes e, com isso, queria dizer que, num curto espaço de tempo, era capaz de captar a estrutura caracterológica de seu interlocutor e discernir o modo como ele agiria em qualquer situação. O fato é que o caráter de uma pessoa está contido em cada ação isolada dela; por isso, há coerência nas ações, porque “costuradas” pelo caráter.

Se o caráter tem que ver, ao que parece, com as ações de um indivíduo, devemos investigar o que é uma ação humana propriamente dita. Não entrarei na seara da imutabilidade ou mutabilidade essencial do caráter. Basta-nos saber que as posições que defendem que o caráter é inato, ou que não muda ou que sofre pouquíssimas transformações devido a uma rigidez de formação constitutiva, são posições todas errôneas.

Por essência, o caráter é mutável, pois, se não o fosse, esforços educacionais, investigações e práticas pedagógicas, exortações morais, punições e castigos, mudanças repentinas e duradouras de comportamento, seja para o bem (no caso da real conversão religiosa e até mesmo da santificação), seja para o mal (opção livre pela malícia ou psicopatologias graves), entre outras realidades, seriam manifestações da vida humana completamente destituídas de razão de ser.

Como dizia, se em cada ação humana o caráter se manifesta ou se cada ação é sustentada pelo caráter, é importante que saibamos o que é uma ação humana genuína. Ou seja, devemos entender como a conduta é constituída. Allers pontua cinco elementos importantes na formação da conduta – a decisão, a expressão, a representação, a posição e o efeito. Vamos tratar, nesse texto, apenas do efeito. Uma observação: Alfred Adler e Rudolf Allers são autores que conversam enormemente entre si. Estes excursos que farei serão importantes para que o leitor melhor compreenda o próprio Adler. O tema continua o mesmo: desenvolvimento da personalidade.

Rudolf Allers observa que toda conduta é marcada por uma espécie de movimento ou tomada de posição do eu em relação ao não-eu (sujeito e objeto). A conduta que é verdadeira conduta humana é um penetrar no conjunto do universo, ou seja, no não-eu, de modo que se lhe altere ou dê uma forma. As ações humanas mudam a face fisionômica do universo. Por universo, entende-se não apenas, conforme o materialismo e mecanicismo hodiernos, o mundo visível, senão também o mundo das Ideias, Verdades e Valores.

A genuína conduta humana penetra no não-eu e o modifica. A face fisionômica do universo é alterada por um simples “bom-dia” que damos ao outro ou mesmo quando o apaixonado colhe uma flor e a oferece à amada – o caráter já está sendo manifestado. Inclusive, a ação humana modifica o mundo das Ideias, Verdades e Valores, não porque, segundo Allers, essa região seja passível de modificações em si mesma, e sim pelo fato de que a atitude do indivíduo em relação a essa região imaterial do Ser transporta as Ideias, as Verdades e os Valores para a realidade espaço-temporal. Portanto, toda conduta será uma relação, uma união entre o eu e o não-eu, com alteração do não-eu.

Justamente porque o não-eu é alterado por meio da ação humana, existe nela o elemento da responsabilidade. Se a ação é, em primeiro lugar, uma ligação entre o eu e o não-eu e provoca uma mudança no universo, ainda que diminuta, tal ação deve estar sob a égide da responsabilidade. Jamais se pode debitar na conta do outro a causa da própria ação, pois quem age altera o não-eu, ou seja, provoca-lhe o efeito de uma mudança. Isto é importantíssimo na clínica psicológica, porque muitas vezes os pacientes argumentam: “Agi assim porque fulano fez tal coisa”. Sempre a genuína ação humana será uma causa primeira de alteração do não-eu, e toda ação pressupõe a ligação, a união do eu com o não-eu, logo uma responsabilidade exterior.

Portanto, toda verdadeira ação humana provoca um efeito no não-eu. Mais: a conduta humana pressupõe, além da responsabilidade exterior, uma responsabilidade interior, e que se refere à posição que o homem, com seus atos, pretende ocupar nos Reinos do Ser a que pertence ontologicamente. Por ausência de espaço, deixarei para tratar a questão da posição no próximo texto. Basta apenas que o leitor tenha em mente, por enquanto, que toda conduta humana é, em primeiro lugar, uma relação entre o eu e o não-eu e que, ao agir provoca no não-eu uma mudança, devendo se responsabilizar por tal alteração. Essa relação entre sujeito-objeto, o eu e o não-eu é sustentada pelo caráter (a definição, ou seja, o que ele é, será dada posteriormente).