Terminei o texto anterior explicando que toda conduta humana se dá pelo pretérito estabelecimento de uma relação entre o eu e o não-eu, e essa conduta gera um efeito no não-eu. Se a genuína ação humana causa alteração na face fisionômica do universo e o penetra, é preciso que o autor se responsabilize por aquilo que altera. Já aqui, Rudolf Allers oferece tanto ao psicólogo quanto à pessoa interessada em formar o próprio caráter, uma importante ferramenta de avaliação terapêutica ou de autoavaliação. Quais são os efeitos de suas ações ou das ações do seu paciente nos objetos sobre as quais tal ação incide? A depender da qualidade de tais ações, pode-se começar a vislumbrar o tipo de caráter que sustenta a conduta.
Em seguida, para a formação da conduta, há aquilo que Allers denomina de posição. Trata-se da posição do homem no conjunto do Ser. A alteração que alguém realiza no não-eu forma um circuito, pois, diante de uma provocação do não-eu, o indivíduo age, causando uma alteração no não-eu, e essa alteração gera uma nova percepção, a qual estabelece uma nova ligação entre o eu e o não-eu, e que demanda outra ação que gera um novo efeito, uma nova percepção e assim por diante, pois “a forma universal do comportamento é ser uma relação”, escreve Allers. A isto o psiquiatra chama de responsabilidade exterior, porquanto está ligada à modificação que a ação de um homem específico promove no não-eu.
Todavia, há aquilo que se chama de responsabilidade interior. Allers compreende o ser humano como uma unidade substancial de forma e matéria. O ser humano não é nem plenamente uma substância espiritual nem plenamente uma substância material – cada indivíduo é a união entre forma e matéria, e à união substancial dá-se o nome de “pessoa humana”. Pelo fato de o homem não apenas ser composto de forma substancial e matéria, senão também pelo fato de a alma humana possuir faculdades imateriais (inteligência e vontade), a morte do corpo, ou seja, o rompimento da união substancial entre forma e matéria, não causa a morte da própria alma. E esse tema, que parece deslocado do assunto, tem muita importância para entendermos a questão da posição na formação da conduta.
Pelo fato de a pessoa humana ser uma unidade entre forma substancial (e tal forma subsiste mesmo com a morte do corpo, ou o rompimento da união substancial) e matéria, ela, a pessoa humana em sua totalidade, pertence, simultaneamente, aos quatro Domínios ou Reinos do Ser – e, como escreve Rudolf Allers, “a posição que o homem deve obter, para si, no conjunto dos seres, deve pois ser determinada pela forma de sua conduta. Nela e por ela se determina a incorporação do homem a este ou àquele reino do ser”.
Antes de descrever ao leitor os quatro Domínios do Ser, é preciso frisar, então, que a verdadeira conduta ou ação sempre intensificará o pertencimento (ou posição) do homem nalgum domínio do ser. Mas, a despeito da distinção entre tais domínios, o homem possui uma natureza última, ou seja, entre os quatro Domínios do Ser, existe um em especial que lhe é mais adequado, e cabe a cada indivíduo, por meio de sua conduta, afirmar ou negar sua subordinação ao reino mais próprio a que pertence pela essência de sua natureza específica.
Claro, Allers afirma que, mesmo que o homem negue, pelas suas ações, a subordinação ao reino que lhe é específico, jamais poderia suprimi-la como objetivo factual. É justamente este poder de se subordinar ou não se subordinar ao reino que lhe é específico a origem do substratum misterioso da liberdade e responsabilidade humanas.Escreve Allers: “Pode-se denominar, a esse aspecto duplo [liberdade e responsabilidade] e objetivo da conduta humana: a manifestação da pessoa nos domínios do ser que a constituem”.
O homem é uma figura corpórea, um organismo, fazendo parte do reino dos seres naturais, tanto pela sua mineralidade quanto pela sua vida vegetal e animal – sensível, psíquica. Em segundo lugar, o homem é pessoa humana, pertencendo ao domínio das pessoas, da família, em suma - da sociedade. Em terceiro lugar, o homem é ser racional e, por isso, é capaz de alcançar o mundo das Ideias, das Verdades e dos Valores, além de conseguir produzir cultura e, por meio dela, se formar. Em quarto lugar, é o homem alma imortal, e, em razão disso, está predeterminado a ser um membro (atual ou possível) do Corpus Christi Mysticum; além do mais, por ser alvo da Graça Divina, o homem se encontra alocado nalgum ponto qualquer do reino sobrenatural.
Entre todas as ações ou condutas humanas, as mais próprias e específicas de nossa natureza são aquelas ações que intensificam nossa participação tanto no reino sobrenatural (enquanto membros atuais do Corpus Christi Mysticum) quanto no reino das Ideias, Verdades e Valores. Quanto mais um indivíduo qualquer, por meio de sua conduta, se posicionar, por exemplo, unicamente no primeiro ou segundo reino, menos especificamente humanas serão suas ações.
