Sentimentos e pensamentos neuróticos são pensamentos e sentimentos habitualmente infelizes, negativos, muito descolados da realidade. Os pensamentos, sentimentos e comportamentos do neurótico pertencem a uma criança lastimosa, cheia de autopiedade, que mora na psique do indivíduo, como um parasita, que lhe vampiriza as forças e energias psíquicas – essa criança percebe-se, essencialmente, como vítima de todas as circunstâncias, é lastimosa, repleta de autopiedade e age dentro da psique do adulto de modo tirânico, ditatorial.
Os sentimentos e pensamentos neuróticos no adulto são essencialmente os de uma criança que se QUEIXA. Nunca é uma criança alegre, feliz, despreocupada – mas sempre, sempre uma criança repleta de pena de si, muito patética, que busca nas situações cotidianas da vida JUSTIFICATIVAS para sentir autopiedade, de modo que já não é mais a pessoa adulta que está a interpretar as situações corriqueiras da vida, pois, quando essa “criança” desperta, o adulto passa a ver o mundo através dos olhos lastimosos da criança interna.
Neuróticos ficam sob a influência de emoções infantis. É comum que o neurótico omita para si mesmo que se queixa como uma criança, pois é muito doloroso aceitar que a negatividade da vida emocional é devida ao vício em autopiedade. É preciso relembrar a própria infância, pois o neurótico somente o é porque possui dentro de sua estrutura psíquica essa criança lastimosa, intoxicada de autopiedade – a criança é o pai do adulto, conforme ensina Freud. É muito importante que se note o seguinte: os sentimentos lastimosos e negativos da infância sobrevivem no neurótico com a MESMA intensidade da infância e a respeito dos MESMOS assuntos. Se a pessoa, na infância, sofria por se sentir rejeitada pelos pais, pelos amigos, será o mesmo sentimento de rejeição que será experimentado na fase da vida adulta, seja na intensidade, seja na forma (conteúdo, tema) – no exemplo citado aqui, rejeição.
A criança interior se queixa com a mesma violência afetiva e dos mesmos assuntos!
Queixar-se é a expressão exterior e visível dos sentimentos de tristeza e autopiedade. Mesmo que não haja queixas exteriores, as emoções negativas, no neurótico, são emoções queixosas! Interiormente, mesmo que não haja pensamentos verbais na mente do neurótico, as emoções são de natureza queixosa, pois através dessas emoções queixosas a criança interior se alimenta de autopiedade: “Pobre de mim, como sofro! Nunca nada está bom comigo... nunca estou bem! Que fardo intolerável é ser eu!”
O COMPLEXO INFANTIL DE INFERIORIDADE
Para que se entenda o funcionamento da “criança interna”, é preciso recordar como são, em geral, de fato, as crianças.
Crianças têm:
1 – Egocentrismo
2 – Vivenciam emoções intensas e se abandonam, perdendo-se a si mesmas, nestes impulsos emocionais
3 – Comparação subjetiva
4 – Tendência à repetição (repetem brincadeiras, histórias, piadas, observações, atos, até à exaustão)
A principal característica da psique infantil é o egocentrismo. Toda criança se considera, por natureza, da maior importância. Uma consequência do egocentrismo infantil é que a criança se compara continuamente com as outras. Por exemplo: quando uma criança ganha um presente, logo menos a outra para e se questiona: “E eu, não vou ganhar também?”.
Frequentemente, crianças se comparam entre si e acabam por questionar-se: “Sou mais estimada, ou menos, que meus irmãos?”. Quando a criança é criticada pelos pais ou por quaisquer figuras adultas, automaticamente se compara com outras crianças. Quando os pais criticam, logo ela pensa ter MENOS VALOR que os outros; do contrário, por que, então, os pais a criticariam?
Como consequência dessa tendência a comparar-se com os outros, a criança pode sentir-se em posição inferior. Quando a criança experimenta um período prolongado no qual se sente repetidamente inferior, desenvolve uma autoimagem negativa.
IMPORTANTE: A autopiedade da criança é justamente essa reação à autoimagem negativa, a qual deriva dum repetido sentimento de não ser amada, de ser inferior, de ser rejeitada, inútil, feia, desprezada, ignorada, feia, gorda, excessivamente magra etc.
Em geral, essa comparação subjetiva é feita, em primeiro lugar, com os irmãos, quer mais novos, quer mais velhos. Quando não há irmãos, com quaisquer outras crianças do convívio (primos, crianças do bairro, colégio etc.). Porém, o FATOR ESSENCIAL é essa comparação subjetiva de natureza egocêntrica. Isto se repete no neurótico adulto. Por exemplo: se na infância se sentia a criança insuficiente, imperfeita, logo desamada por isso, e está sofrendo problemas no casamento, quando vê uma cena de uma família feliz em qualquer lugar, um shopping, por exemplo, acabará por usar aquela cena como fonte de justificativa para queixar-se: “Pobre de mim, os outros casais são famílias felizes, por que não posso ser feliz também no meu casamento?”.
Como crianças têm tendência à repetição e a vivenciar emoções intensas, as emoções geradas pela comparação subjetiva egocêntrica se repetem de modo intenso na psique da criança, principalmente na parte imaginativa, gerando, então, com o tempo, a autopiedade, pois quando a criança se sente inferior, se sente rejeitada e desamada, ela dá a si mesma calor e simpatia (autopiedade) a fim de “digerir” o trauma psíquico e reestabelecer a homeostase (equilíbrio) da psique. Porém, com o tempo, o sentimento de autopiedade se torna viciante, pois quanto mais autopiedade a criança sente, mais enraizada fica a autoimagem negativa de si, a autoimagem negativa de ser desamada, de ser substituível, de ser inferior etc. Ou seja, essa autoimagem negativa é, propriamente, um complexo de inferioridade, que precisa se alimentar de autopiedade através de queixas emocionais compulsivas, transformando as diversas situações da vida em fontes de justificativa para seus lastimosos queixumes.
Para uma criança, sentir-se inferior às outras é absolutamente o mesmo que se perceber indigna de amor. Ser inferior é o sentimento atroz e dolorido que a criança experimenta de NÃO PERTENCER AOS OUTROS, DE ESTAR ABAIXO DOS OUTROS, DE SEMPRE ESTAR SOLITÁRIA, POIS OS OUTROS SEMPRE TERÃO MAIS VALOR DO QUE ELA... “POBRE DE MIM!”
Quando essa situação perdura por tempo demais, a criança desenvolve um complexo de inferioridade. Ao crescer, o adulto neurótico terá dentro de sua estrutura psíquica uma sua “criança do passado”, que tenderá a se lastimar, a choramingar, repetindo as emoções que provocavam sua autopiedade, na mesma intensidade e a respeito dos mesmos conteúdos.
É muito importante atentar-se a isto: o adulto neurótico tem compulsão por repetição, e repetirá suas emoções lastimosas infantis a fim de se alimentar de autopiedade. Para isto, é necessário distorcer a realidade, para que esta VALIDE ou JUSTIFIQUE suas emoções negativas, dando razão à autopiedade posterior.
AS SEIS CARACTERÍTICAS DA AUTOPIEDADE COMPULSIVA INFANTIL
Rigidez – A “criança interna” dentro do neurótico é uma estrutura que não se modifica nem na intensidade, nem na forma (conteúdo), depois da infância, ou seja, é o idêntico sentimento de rejeição, de ser feio, de ser desvalorizado etc., que já existia na infância, e que é repetido durante a idade adulta – é a famosa “compulsão por repetição”, da qual fala Freud
Imunidade para influências exteriores – A “criança interna” é imune a influências situacionais. Quando uma pessoa hospeda dentro de si uma “criança” que tende a queixar-se, por exemplo, de ser criticada, ou não amada, esta “criança” continuará queixando-se do mesmo assunto, embora as pessoas em seu ambiente atual, de vida adulta, não sejam pessoas críticas. Apesar da mudança de situação (em comparação com a da infância), a “criança” permanecerá desempenhando o papel de “pobre criticada” e conceberá os outros como se fossem críticas. Isto pode acontecer em ambientes de família, entre amigos, no trabalho. A criança interna é IMUNE a experiências novas da vida. Isto ocorre justamente para que a criança interna possa justificar para si a autopiedade que sente, queixando-se continuamente e, inclusive, prejudicando, por exemplo, ambientes de trabalho ou de família. Os colegas ou familiares não são pessoas críticas, mas o neurótico acredita que todos o criticam, justamente para alimentar-se de autopiedade.
Autonomia – A “criança interna” funciona CONTRA a vontade consciente da pessoa. É por esta razão que muitos neuróticos experimentam seus sentimentos neuróticos como alheios ao “eu” (experiência de despersonalização). A autopiedade infantil surge automaticamente, involuntariamente, e, por isso, o neurótico, muitas vezes, sente a autopiedade como uma espécie de obsessão, leve ou grave.
Autoperpetuação – A autopiedade compulsiva mantém-se independentemente e procura alimento nas situações, sentimentos e sensações negativas para se queixar.
Resistência contra eliminação – tentativas do próprio neurótico ou de outras pessoas de eliminar a autopiedade ou de atacá-la encontram resistência vinda da “criança interna”.
Inconsciência da autopiedade – o próprio neurótico não pode experimentar seus sentimentos de autopiedade como autopiedade; a seu ver, não é autopiedade o que sente.
O HERÓI TRÁGICO – AUTODRAMATIZAÇÃO
Uma criança lastimosa sente-se como um herói trágico, o personagem principal de uma tragédia. Por isto, autopiedade infantil pode ser traduzida pela palavra autodramatização.
Sabemos que crianças têm tendência para repetir e exagerar. Repetem ações, repetem piadas de que gostaram, repetem relatórios de acontecimentos etc. Além disso, crianças abandonam-se a impulsos emocionais – por isso padecem, muitas vezes, de quantidades excessivas de autopiedade, principalmente se estiverem sozinhas com sua tristeza e não puderem falar dela para outras pessoas e receber carinho e conforto dos outros. A autopiedade que a criança sente é tão compulsiva que será dificílimo para ela mesma parar com essa emoção sem ajuda de outras pessoas. Consequentemente, passa a existir na memória afetiva da criança uma impressão muito profunda dessa autopiedade. Essa impressão será mais profunda na medida em que a emoção que gerou autopiedade foi mais intensa, profunda e prolongada. Os impulsos de autopiedade são tão fortes que é mais fácil para o neurótico abandonar-se e render-se a tais impulsos, do que resistir a eles. Justamente por isso, quando o neurótico começa a combater isto, pode, inclusive, sentir-se frustrado – algo como abstinência de autopiedade.
É importante notar que o neurótico resiste a reconhecer que sofre de autopiedade compulsiva porque tal reconhecimento fere o amor-próprio da criança interna. Logo, o que vicia na autopiedade é o AMOR-PRÓPRIO. Quando uma criança reage com autopiedade, desvia toda a sua atenção para o próprio “eu”, doando a si mesma simpatia e calor (consolação), o que é essencialmente uma manifestação do amor-próprio. Por isso, em geral, o objetivo ou intencionalidade caracterológica do neurótico é sempre ele mesmo, sobrando pouco ou nenhum espaço para o outro, e tudo justamente por causa desse egocentrismo de sua “criança interna” que só consegue ver a autoimagem lastimosa de si mesma... Um pai ou mãe neuróticos, por exemplo, ao julgar que tudo fazem pelos filhos, estão se doando não a eles, mas a si mesmos – isto ocorre quando o neurótico julga que não está dando a infância “ideal” aos filhos. No fundo, nada estará perfeito, porque, se estivesse, não haveria razão para se queixar. Tudo, para o neurótico, deve se tornar fonte de justificação para queixas.
“Pobre de mim! Ninguém tem gratidão para comigo e eu faço de tudo para todos.... pobre de mim! Tento amar minha esposa, mas ela não valoriza nada do que faço... pobre de mim! Ninguém se dá conta do quanto sofro, realmente ninguém se importa comigo... pobre de mim! queria tanto que reconhecessem as minhas qualidades... pobre de mim! nunca vou ser tão feminina (ou tão masculino) quanto essa pessoa que admiro. Pobre de mim! os amigos que tenho não são dignos de mim ...”
O neurótico está tão preocupado com seu “eu” infantil que toda a sua atenção é sempre dirigida a ele mesmo; logo, não sobra tanto assim para os outros.... Em oposição ao que encontramos num desenvolvimento psíquico normal, a atenção do neurótico não passa gradualmente a dirigir-se a objetivos e valores fora de si, mas fica intensamente ligada ao sentimento infantil de autopiedade – daí, por exemplo, o fato de muitos neuróticos terem memória e atenções ruins.
A atenção do neurótico sempre se volta para dentro dos dramas trágicos da criança interna. E como a autopiedade é uma ATITUDE PASSIVA, por isso ela diminui a força de vontade do indivíduo (“fraqueza do ego” ou da volição). Ou seja, a autopiedade tem muito que ver com o DESÂNIMO e falta de interesse e/ou hipercrítica em relação às coisas do mundo. Não podia deixar de ser de outro modo, já que o neurótico tem sua atenção inteira voltada para os dramas internos de sua “criança do passado”.
Os sentimentos neuróticos negativos de qualquer espécie, ou sentimentos/emoções queixosos, são FONTES DE JUSTIFICAÇÃO PARA QUEIXAS, cujo objetivo é padecer de autopiedade.
Embora cada neurótico tenha inúmeras justificações para queixar-se, sempre haverá uma queixa específica, ou seja, um DRAMA CENTRAL, que caracteriza sua vida psíquica, e que é o tema central de toda lástima infantil. Essa queixa principal ou original é a mesma que causou sua autopiedade na infância propriamente dita. A “criança interna” no adulto interpretará as muitas situações de sua vida adulta, ao longo dos anos, com base neste autodrama original, de modo a justificar suas queixas.
Cada neurótico, portanto, tem o seu próprio tema principal para queixar-se. É muito importante que o paciente consiga visualizar este drama central, por meio do qual se alimenta de autopiedade. Ou seja, a compulsão a queixar-se sempre será a REPETIÇÃOdo DRAMA INFANTIL ORIGINAL, pois cada neurótico se vê, em sua vida psíquica, como um HERÓI TRÁGICO, e este herói trágico é um COLETOR DE INJUSTIÇAS, vê a si mesmo como uma FLORZINHA AMASSADA.
AS QUATRO LEIS DAS QUEIXAS NEURÓTICAS
1 – Lei da continuidade das queixas:
A “criança interna” não para de queixar-se, pois sempre tem algum sofrimento para justificação de sua autopiedade. A “criança interna” se sente o centro trágico das circunstâncias, por isso o adulto conta sua própria biografia, sua história de vida, de modo enviesado – são as histórias da criança interna, é a repetição do drama infantil. A “criança interna” escolhe lembranças que fornecem material para se queixar, omitindo coisas ou aspectos positivos de acontecimentos passados, de pessoas com as quais convive ou conviveu etc. Da mesma maneira que a visão do passado está influenciada pela tendência de se queixar, a percepção do presente e do futuro é desviada numa direção negativa, de modo a fornecer justificações para queixas. A lei da continuidade das queixas NÃO age quando a atenção consciente do neurótico está ocupada por forças maiores do que a compulsão de se queixar; por exemplo: emoções reais fortes como tristeza causada por um acontecimento realmente traumatizante, alegria por causa de um sucesso ou por estar enamorado, podem temporariamente desviar a atenção da atitude queixosa. Trabalhar com afinco, com grande concentração e preocupações reais, levam do mesmo modo à distração. Porém, depois a compulsão por queixar-se retornará.
Importante: Relacionado com a atuação cíclica da tendência de queixar-se, está o fenômeno da satisfação de queixar-se. Depois de queixar-se intensamente durante um período de “maré”, a “criança interna” está “satisfeita”. Neuróticos podem sentir-se um pouco melhor depois de queixarem-se por alguns dias, ou horas, de modo intenso. Porém, durante a fase de “maré baixa” das queixas, raramente a tendência a se queixar está completamente paralisada; apenas está funcionando num nível mais baixo.
2 – Lei da equivalência das queixas:
Indica-se, por esta denominação, que o conteúdo das queixas não é muito importante. Pode-se mudar facilmente o tipo ou o conteúdo das queixas sem que haja alteração na intensidade da própria doença de queixar-se. A queixa principal, por exemplo, não é mais importante do que qualquer outra queixa, sejam elas
- queixas somáticas (neurose somática - buscar motivos orgânicos para queixar-se e sentir autopiedade – inclusive, a criança interna, muito imaginativa, consegue literalmente imaginar dores físicas como fontes de justificativas para queixas, e tais imaginações são somatizadas, e o neurótico sente realmente dor), sejam elas
- queixas críticas (buscar defeitos em outras pessoas, ou julgá-las com dureza, responsabilizando-as pelos próprios sentimentos crônicos de insatisfação, não com o intuito de realmente ajudá-las a melhorar, mas somente para sentir piedade de si mesmo), sejam elas
- queixas autocríticas (usar da própria personalidade como fonte de justificação para queixas) sejam elas
- queixas psíquicas (usar dos próprios sentimentos, emoções, lembranças, capacidades cognitivas para queixar-se). Não importa o drama central justamente por causa da lei da equivalência das queixas. Ou seja, tudo é motivo para a compulsão de queixar-se. Apesar de ser importante descobrir o drama central, resolvê-lo terapeuticamente não elimina a neurose, porque o neurótico buscará como fonte de justificação para queixar-se outros elementos. O que deve ser atacado não é o drama central, mas a própria compulsão em si por queixar-se. O hábito de queixar-se, de lastimar-se deve ser eliminado.
3 – Lei da defesa das queixas ou lei da resistência das queixas:
A “criança interna” resistirá ante a possibilidade de eliminação das queixas ou de suas razões. A lei de defesa das queixas surge mais propriamente quando o neurótico começa a dar-se conta do que aqui está sendo explicado e começa a ver isto em sua vida de modo mais claro; porém, ele julgará: “Existem também queixas no meu caso que são reais...”, e com tal pensamento sustenta boa parte das queixas neuróticas. Em geral, a criança interna não quer admitir que tem autopiedade, pois isto fere seu amor-próprio. Reconhecer autoqueixas implica que a pessoa já começou a querer desistir um pouco dessa atitude. A lei de defesa das queixas faz com que o neurótico perceba as queixas como adequadas, baseadas na realidade... Isto é válido para queixas autocríticas, críticas, psíquicas e somáticas. O grande problema é que o neurótico geralmente, pelo menos de início, se recusa a admitir que A RAIZ do seu problema é que ele TEM DE QUEIXAR-SE COMO A CRIANÇA QUE OUTRORA FOI.
4 – A lei de introversão da atenção:
Significa simplesmente que a atenção do neurótico está concentrada em volta do próprio “eu” – o “eu” da criança interna. A neurose é constituída do sentimento de “pobre de mim”. A criança interna sente-se a “única vítima” e que “ninguém sofre tanto quanto eu”. Isto ocorre porque a neurose leva a pessoa à EGOFILIA, ou seja, a um amor-próprio desordenado, amor este que faz a pessoa referir tudo a si mesma.
A CRIANÇA IN TOTUM (em sua totalidade)
A autovisão de inferioridade é a base da queixa principal. A queixa principal sempre está baseada numa autovisão de inferioridade. Isto NÃO É um reconhecimento de tipo intelectual da inferioridade de si, mas um SENTIMENTO de ser inferior, logo digno de lástima. Todos os pensamentos e emoções que na infância foram relacionados com o drama da “criança” permanecem vivos, inspirados e impulsionados pela queixa principal, a qual se tornou AUTÔNOMA (lembre-se que uma das características da autopiedade compulsiva infantil é a autonomia – ela funciona contra a vontade do neurótico).
A “criança do passado”, que se sente “pobre coitada”, tem vergonha de si, pois vê os outros sempre como “superiores”... “Meu esposo dá mais atenção para minha mãe do que para mim mesma, pobre de mim!”. Lembrando: mesmo que isto seja um FATO, essa observação acertada da realidade é utilizada como fonte de justificação de queixas, cujo objetivo, como dito exaustivamente até aqui, é a autopiedade infantil.
Como a criança do passado tem vergonha de si, o neurótico pode habitualmente evitar contatos pessoais, manter-se à distância, cheio de lástima de si, fechar-se em introspecção, ou pode apresentar-se diferente do que é, uma vez que a “criança do passado” sente-se inferiorizada; ou seja, por se sentir digno de lástima, o neurótico tenderá a esconder o seu eu inferior, evitando contatos pessoais, ou de um modo oblíquo, numa espécie de hiperautoafirmação de si como compensação para a lástima que sente de si.
A hiperautoafirmação é a conduta da criança interna que se revolta por sentir-se inferior e deseja desesperadamente afirmar-se sobre os demais, muitas vezes humilhando o próximo, afastando-se dele ou até mesmo prejudicando-o, seja por meio de violência física, seja por plantar intrigas, ou falar mal, ou julgar em excesso através de idealizações de como tais pessoas deveriam ser etc. A hiperautoafirmação pode aparecer também na forma do neurótico que vive tentando agradar a todos, que vive tentando ser gentil, ou mesmo puxando o saco dos outros, pois a “criança interna” julga que precisa conquistar, a qualquer custo, a estima dos outros, para “ser finalmente alguém”, para ser considerada “adulta” também como os outros. O neurótico autopiedoso pode se hiperautoafirmar buscando, a qualquer custo, uma POSIÇÃO DE DESTAQUE ACIMA DE SEUS SEMELHANTES.
Alguns neuróticos, que exibem uma conduta de superioridade ou dominância, estão desempenhando o papel de alguém altamente importante, sobrepujando assim a voz queixosa de suas “crianças internas” que sofrem sentimentos de inferioridade. Embora tais personalidades, às vezes, até creiam na própria importância – o que é possível, porque as crianças podem acreditar na própria imaginação –, os papéis que desempenham são reações a um complexo de inferioridade. Um pouco de megalomania é um tipo de pensamento infantil, e em geral está presente em quase todo neurótico – “O mundo somente se sustenta se eu colocá-lo inteiro sobre os ombros”.
Junto à hiperautoafirmação, pode vir a tendência da “criança interna” de procurar atenção, estima, simpatia e amor para si. Com este propósito, tenta chamar a atenção sobre si, desempenhando qualquer papel (ser demasiadamente atencioso ou charmoso; ser servil demais; ajudar todo mundo, mesmo quando não necessário; fazer o papel de eterno palhaço de quem todo mundo se ri, ou seja, o papel de pobre bobo ou inocente inábil que toca o instinto de proteção dos outros. Cada criança interna está em busca de amor e estima, o que é claramente expresso nos olhares mendicantes e no comportamento “viscoso” em face dos outros.
Porém, essas tendências NUNCA poderão ser satisfeitas, incluindo as de hiperautoafirmação, Quando a “criança interna”, que deseja ser amada e estimada, recebe estima e amor, voltará a queixar-se de não ser amada o “suficiente”, ou se queixará de que o amor que lhe é dado é mentiroso, ou que não deseja amor daquela pessoa, e sim daquela outra; porém, se recebe amor desta pessoa, continuará insatisfeita, e buscará outros motivos para queixa (lei da continuidade das queixas).
A “criança do passado” está lutando ou esforçando-se exaustivamente para alcançar uma felicidade que não é mais do que uma miragem.
Evidentemente, cada “criança interna” tem seus próprios papéis em face dos outros: uma sempre tenta ser o líder para obter para si o sentimento de valor-próprio, ou julga através de ideais de perfectibilidade a si e aos outros; outra é o “artista espontâneo e sensível”; outra o “trabalhador infatigável”; outra o “generoso” que sai distribuindo presentes para comprar a estima e simpatia alheias; ou o “virtuoso”, “o bonzinho”, “o simpático”. Ou seja, é comum que o neurótico desempenhe papéis. Isto ocorre porque o neurótico busca adquirir valor para si, pois ADQUIRIR VALOR É O MESMO QUE SER AMADO.
Fique claro que muitos, senão todos os neuróticos, leves e graves, conservam sentimentos infantis em relação aos pais, ou seja, têm “vínculos emocionais infantis” com eles, constituídos ao mesmo tempo por sentimentos de afeição e hostilidade. É muito comum, por exemplo, que o neurótico transfira aos outros o vínculo que formou com os pais. Se o pai do neurótico era uma pessoa muito crítica, é comum que o neurótico projete isto nos outros, e pode vir a acreditar que, assim como o seu próprio pai, os outros são críticos também com ele.
TRANFERÊNCIA DE VÍNCULO: é preciso atentar-se a este processo. Um neurótico que na infância sofria por julgar-se desamado pelos pais, e que, para lhes conquistar o amor, desenvolveu um APEGO ANSIOSO em relação a eles, pode transferir isto a suas relações adultas. Apego ansioso é a constante tentativa de fazer com que aquelas pessoas julgadas como insubstituíveis para o equilíbrio emocional, para a estabilidade do mundo, demonstrem amor. Se os pais exigiam muito da criança, no sentido de perfeição, o adulto neurótico pode exigir isto dos outros. Como ninguém pode ser perfeito, a imperfeição dos outros torna-se fonte de justificativa para queixumes lastimosos e a consequente autopiedade daí derivada.
Há neuróticos que se tornam violentos: quando uma criança começa a sentir-se inferior e a ter autopiedade, os instintos mais violentos e primitivos, egocêntricos, podem ser despertados como consequência da autopiedade, entre os quais se encontra, às vezes, uma verdadeira obsessão de vingança. A mania de vingança manifesta-se no prazer neurótico em sarcasmo e na gozação, com a finalidade de importunar outra pessoa de modo doloroso. Crianças que não se sentem bem amadas podem mostrar essa reação: gostam, mais do que seria normal, de gozar e de zombar dos outros. Reencontra-se o mesmo traço em adultos neuróticos excessivamente sarcásticos e gozadores. A fonte mais profunda de seu sarcasmo e ironia pode ser uma insatisfação, uma inveja infantil ou um sentimento crônico de ser insultado (pobre de mim!) – logo, uma atitude autoqueixosa.
É normal também que o neurótico desenvolva um “eu-ideal”, uma imagem exagerada de si que nunca é alcançada, o que leva a queixumes infindos e a muita autopiedade.
CONSEQUÊNCIAS COMUNS DA “CRIANÇA QUEIXOSA”
A criança queixosa pode achar que seu lugar tem de ser inferior ao dos outros, e certamente não é um lugar de adulto. Pensa que tem de fazer “truques” para ser aceita nesses papéis adultos, porque não pode encarar seriamente que ela está trabalhando ou que tem a possibilidade de trabalhar e desenvolver algo realmente relevante. A criança interna faz o adulto acreditar que está desempenhando um “papel falso, como se fosse de adulto”. Isto ocorre porque, ao atribuir-se falsidade ou incapacidade, a criança interna nutre-se de autopiedade.
Outra consequência é que a criança interna, às vezes, busca imitar alguém que acredita ser o modelo ideal. Pensa que ao imitar este modelo ideal ficará segura; ao ver que isto é falso, alimenta-se de autopiedade: “Pobre de mim, nunca vou ser tão excelente como essa pessoa, sou realmente inferior!”.
A PROJEÇÃO é outra tendência da neurose. O neurótico, para sentir autopiedade, tende a colocar nos outros aquilo que está pensando ou sentindo sobre si. Isto baseia-se no autocentrismo infantil. A “criança interna” dificilmente imagina que os sentimentos, pensamentos, opiniões dos outros possam ser diferentes dos seus; em consequência, explica os motivos das outras pessoas do MESMO MODO como os sente e percebe dentro de si. Com neuróticos, essa tendência de identificar outros consigo gera interpretações erradas dos motivos dos outros – a projeção é um modo infantil de perceber o mundo. Falando de neurose, a “criança do passado”, marcada pelo complexo de inferioridade, pensa (projeção) infinitas vezes que os outros a julgarão sem valor. Em muitos casamentos, por exemplo, o cônjuge sofre porque, ao julgar que o seu casamento não vai bem, acredita que os outros perceberão e lhe atribuirão menor valor. A consequência dessa projeção dos próprios sentimentos de inferioridade em outros faz com que a “criança” já de antemão possa tomar uma atitude de defesa ou de oposição. Sua má interpretação dos pensamentos dos outros leva a mal-entendidos e até a conflitos. O neurótico PROJETA nos outros sua AUTOVISÃO INFANTIL, com o intuito de repetir os dramas da infância.
A atenção da pessoa queixosa é em grande parte absorvida pela emoção-pensamento do “pobre de mim!”. A consequência lógica disso é que sobra menos atenção para outras ocupações psíquicas. Muitos neuróticos, portanto, se queixam de falta de concentração e esquecimento. Pensam que sua memória e atenção são deficientes, mas na verdade ambas estão ocupadas pelas queixas infantis no momento de perceber algo, de gravar algo na memória...
Outra consequência é mimar-se (automimo). O descontentamento crônico do neurótico, o fato de ele nunca sentir-se verdadeiramente satisfeito, leva à reação compensatória de automimo. A “criança interna” deseja algo que lhe ofereça satisfação. Pode ser um estímulo forte, sensual, emanante de contatos sexuais, de bebidas e comidas; podem ser estímulos oriundos de aventuras emocionantes ou de compras irresponsáveis de coisas que objetivamente são absolutamente desnecessárias, levando inclusive a prejuízo financeiro. O neurótico buscará muitos prazeres egocentristas para compensar seu descontentamento crônico, e depois se culpará por tê-los buscados, para sentir autopiedade: “Pobre de mim, nunca me satisfaço!... pobre de mim, como sou irresponsável!... pobre de mim, prejudico a todos!... pobre de mim, sei que não posso comer tantos doces, como estou engordando e ficando cada vez mais feio, mais repulsivo!...
DEFINIÇÃO DE NEUROSE – A neurose é o autoabandono contínuo ao sentimento narcisista de autopiedade infantil
TÊCNICAS PARA ELIMINAR A COMPULSÃO POR QUEIXAS
1 - Em primeiro lugar, conhecer teoricamente o que é e como funciona a neurose. Isto é parte mesma do próprio tratamento. Depois de ser compreendidas as várias manifestações da neurose, referir estes conhecimentos à vida infantil biográfica (sua infância literal), a fim de descobrir o autodrama central, e buscar compreender como a neurose está se manifestando na vida adulta de forma habitual. Portanto, é preciso explorar a vida emocional infantil tal como ela se deu sob a luz do modo operativo e característico da neurose.
É preciso que se encontre a AUTOVISÃO NEGATIVA e explorá-la em terapia.
2 – Auto-observação e autoanálise
O paciente deve, ao longo dos dias, se observar. Deve observar o seu humor. Quando houver humor negativo, deve analisar as alterações emocionais à luz do que foi explicado e buscar as imagens mentais (fotografias da recordação) vinculadas a essas emoções.
Observação importante: Análise das lembranças da infância não deve ser “infinita”, seja na terapia, seja quando o próprio paciente investiga a si mesmo ao conhecer o funcionamento da neurose e ao analisar como ela funciona pessoalmente em si. A análise das lembranças deve ser encerrada quando o psicólogo e o paciente souberem o suficiente para conhecer a autovisão infantil, ou seja, o autodrama, assim como as reações que essa criança habitualmente demonstrava e que repercutem, neuroticamente, na vida adulta. Concentrar-se demais em inúmeros pormenores da infância pode reforçar, ao invés de combater, o sentimento infantil de egocentrismo, vinculado ao drama central do pequenino herói trágico que choraminga: “Pobre de mim!”. Ou seja, continuar a análise dos dramas infantil, depois de ter descoberto da autovisão dramática infantil, somente serve de alimento para a autopiedade do paciente.
A auto-observação e a autoanálise são um trabalho que se desenvolve algum tempo, na vida de cada dia. O cliente é indagado principalmente sobre suas emoções e pensamentos negativos (depressivos, irritados, tensos, ansiosos) e deve interrogar-se nesses momentos: “Tenho medo, raiva, tristeza? Por quê? O que estou pensando ou esperando? Como reajo à observação dessa pessoa quando estou com tensão? O que estou sentindo ou pensando? Veja! Estou me vangloriando nessa reunião, ou desempenhando tal ou qual papel. Por quê? O que estou sentindo ou pensando sobre mim e os outros. Se estou com emoções queixosas, do que estou propriamente me queixando? Qual o drama que evoco para me alimentar de autopiedade? Estou me sentindo de que jeito, propriamente? – injustiçado? Desamado? Abandonado? Ignorado? Preterido? Rejeitado? Humilhado? Quanto de autopiedade espero alcançar com esses sentimentos queixosos? De todas essas coisas de que reclamo, há realismo nelas? E, mesmo que haja, eu não estou usando uma observação acertada da realidade só para me queixar e sentir autopiedade?”.
A auto-observação, desse modo, tem um complemento automático de autoanálise, levando à constatação da presença de qualquer sentimento ou pensamento de frustração: “Tenho um pressentimento de que ele ou ela não gosta de mim... tenho o pressentimento de que me desprezam... tenho a sensação de que não sou útil para nada, de que não tenho nem posso ter valor algum a meus próprios olhos e aos olhos alheios... tenho o pressentimento de que o outro recebe mais estima e atenção do que eu, e não suporto isso... sinto-me tratado(a) como estúpido e isso me irrita... estou procurando apoio, elogios e estima, logo sinto-me inferiorizado...”
A autoanálise vai até a formulação de um sentimento de inferioridade ou de uma vivência negativa experimentada pelo “eu” de uma situação qualquer, isto é, a autoanálise deve ir até a verbalização de uma queixa. É preciso que o paciente consiga ver que estes sentimentos queixosos, os pensamentos queixosos, ocultam queixumes da “criança interna do passado”. O paciente deve conscientizar-se EXATAMENTE disto e ser capaz de dizer para si:
“A criança interna do passado dentro de mim (a menininha ou o menininho) tem medo de ser criticado, de ser abandonado, de ser desprezado, de ser deixado de lado, ignorado, zombado, escarneado, passado para trás, de ser julgado imperfeito, falho... essa criancinha interna do passado tem medo de não ser julgada como simpática quando recusar algo a essa pessoa... é a criança dentro de mim que se assusta quando pensa que vai ser castigada, então pensa que sempre é culpada, e se queixa e afunda em autopiedade...”
A auto-observação e a autoanálise ativam a CONSCIENTIZAÇÃO de que muitos sentimentos e pensamentos negativos são sentimentos e pensamentos concretos que PERTENCEM À CRIANÇA INTERNA DO PASSADO. Faz com que o cliente gradativamente reconheça sua “criança” como uma personalidade REAL e SEPARADA do seu próprio eu adulto.
É preciso que, ao se auto-observar e autoanalisar, o paciente consiga separar os pensamentos e sentimentos neuróticos, os quais provêm da criança interna do passado, dos sentimentos e pensamentos de seu “eu adulto” – isto é alcançado aos poucos. Progressivamente, o paciente perceberá seus sentimentos e pensamentos como sendo mais e mais pertencentes à criança interna.
Observação importante: Ter percepção dessa “criança interna do passado” dentro de si, em seus pensamentos e sentimentos negativos, assim como em seus comportamentos, deve ser uma percepção de tipo visual (na imaginação). O paciente, que começa a ter essa percepção, descobre que essa “criança” o acompanha durante quase todo o dia, frequentemente com sentimentos sutis, quase marginais, outras vezes com queixas preponderantes.
O paciente precisa, por meio da auto-observação e da autoanálise, aprender a isolar seus pensamentos e sentimentos negativos, que pertencem à “criança interna do passado”, dos seus pensamentos e sentimentos adultos. É preciso realizar essa separação. Isto, no começo, é mais difícil; com a prática, vai se tornando cada vez mais fácil, ao ponto em que o paciente, ao pensar o sentir algo, já sabe que aquele conteúdo deriva não de sua personalidade adulta, mas de sua personalidade infantil e tirânica.
HIPERDRAMATIZAÇÃO
Auto-observação e autoanálise são atividades que o cliente deve fazer fora da terapia e durante a terapia, e com o psicólogo, também. É preciso que o paciente consiga reconhecer todos os momentos queixosos de sua criança interna.
Em seguida, o terapeuta aplica a técnica da hiperdramatização. Quando o cliente expressa uma emoção neurótica, analisa-a e coloca-a em palavras, por exemplo: “Tenho o sentimento de que me depreciam... reconheço mais ou menos que é o mesmo sentimento que tive quando criança (frente a minha mãe ou a meu pai, por exemplo). O paciente sabe que esse sentimento é emitido por sua “criança queixosa”, que o criou para sentir-se novamente um “pobre coitado”; mas essa consciência não implica em uma conscientização completa da autopiedade, nem certamente numa conquista. Tudo isso pertence à auto-observação e autoanálise. Assim sendo, os passos a seguir são:
1 – registrar que surgiu uma emoção negativa que não emana do próprio eu adulto, e que é inadequada à realidade
2 – verbalizar (identificar) essa emoção (“sinto-me depreciado)
3 – conscientizar-se de que é uma emoção da “criança queixosa”
4 – conscientizar-se intelectualmente de que essa emoção é uma justificação para sua autopiedade
5 – buscar reconhecer se essa emoção queixosa é a repetição de uma vivência familiar da infância ou adolescência. Nem sempre é assim: pode ser também uma queixa nova, porque a “criança queixosa” pode empregar cada sentimento, pensamento ou sensação pensável ou impensável, pode criar quaisquer impulsos negativos para alimento de sua compulsão a queixar-se.
6 – em seguida, o paciente, nutrido de toda explicação conceitual da neurose e da auto-observação e autoanálise em terapia e individual, fora da terapia, deve visualizar a “criança queixosa” – ou seja, imaginá-la fora de si
7 – segue-se a hiperdramatização. O paciente, tomando a posição do adulto, curva-se (ele é mais alto!) à criança visualizada e, no caso de uma queixa da forma “sinto-me depreciado”, por exemplo, fala do seguinte modo: “Ai! Pobre coitadinho! Como está chorando! Você é capaz de se afogar em tantas lágrimas... Então as terríveis pessoas não gostam de você, não é? Depreciam você, cospem na sua cara, arrancam seus cabelos, dão gargalhadas enquanto batem e espancam você. E você, com seus olhos tristes, fica mendigando, de joelhos, gritando – tenham piedade de mim, tenham piedade! E os malvados responde a você com pontapés e bofetadas...”
Tal “dicurso” contém, então, os seguintes elementos – o hiperdramatizador parte da queixa experimentada e:
1 – Dá razão à “criança queixosa” de lastimar-se a respeito dos seus sofrimentos
2 – Depois, o hiperdramatizador aumentará com argumentos novos e EXAGERADOS as razões dos queixumes infantis, comunicando-os à criancinha lastimosa – “Na realidade, criança queixosa, é tudo MUITO MAIS TERRÍVEL do que você mesmo pensa. Então, o hiperdramatizador EXAGERA muito a tragédia da criancinha lastimosa ATÉ O NIVEL DO ABSURDO
3 – O que é, para a “criança”, um drama, transforma-se num “hiperdrama”, daí o termo hiperdramatização. Uma boa hiperdramatização pinta, frente aos olhos da “criança queixosa”, uma situação MUITO MAIS patética do que ela mesma sente. Criar supertragédias leva a “criança” a um sorriso, depois, se o hiperdramatizador continuar fazendo a criancinha lastimosa interna rir pelo absurdo da hiperdramatização, a queixa dramática perde força, pois aparece como é: algo ridículo, patético, e, naquele momento, tal queixa desaparece. Um sorriso, e até mais, um riso tem uma força irresistível: mata o sentimento de autopiedade, liberta a pessoa dele. Depois de rir o paciente se sentirá melhor, ao mesmo tempo que reconhece mais nitidamente a queixa interior como uma manifestação de autopiedade.
A hiperdramatização é a aplicação de uma força mental negligenciada, mas que é um remédio de valor inestimável: o bom humor. Humor dá energia, capacita-nos a gostar realmente da vida, faz com que a pessoa humana guarde distância psíquica das coisas e acontecimentos em volta dela e não seja envolvida demais; auto-humor gera a mesma atitude saudável para consigo.
O paciente deve começar a hiperdramatizar com as queixas infantil mais leves, depois, com o tempo, passar para as mais rígidas e centrais. É preciso que o paciente possa separar um tempo do seu dia para hiperdramatizar, duas vezes ao dia, entre 10 a 15 minutos. É preciso que a hiperdramatização seja muito teatralizada, daí a necessidade de um ambiente em que o paciente possa expressar-se, como na terapia mesma, ou em seu banheiro, em seu quarto.
A hiperdramartização é difícil para o paciente que inicia, pois há resistência da criança interna. Muitas vezes, o paciente acha que está hiperdramatizando mas não está, só está dialogando com sua criança interna, pois ela não gosta e não aceita ser ridicularizada. Quando a hiperdramatização é incisiva, poderosa, a criancinha interna tenderá a resistir, pois não suporta que alguém tire sarro dela.
O paciente, muitas vezes, deve superar uma resistência quase física antes de aplicar a técnica do humor. Hiperdramatização significa que o paciente realmente tomou uma atitude muito mais ativa para com sua “criança queixosa”. A hiperdramatização deve deixar a criança interna sem proteção alguma, completamente vulnerável, sentindo-se privada de tudo, nua, pressionada a abandonar seu querido sentimento de autopiedade.
Logo após uma hiperdramatização bem-sucedida que aniquilou uma queixa, a “criança” voltará com novas queixas. É assim mesmo. É universal a substituição das queixas durante um período de hiperdramatização. O paciente deve intensificar os ataques à criança interna pela técnica de hiperdramatização aos poucos, até entrar numa fase de 15 a 20 hiperdramatizações por dia, rápidas, e que geram humor e escárnio à criança queixosa.
É preciso que o paciente perceba conscientemente sua autopiedade em todas as suas expressões diferentes e recusar à “sua criança interna do passado” esse alimento durante muitos meses antes de poder curar-se realmente. É preciso que o paciente saiba que, depois de cada melhora, depois de vencer as queixas pela hiperdramatização, a “criança” volta com um contra-ataque, emitindo com força renovada suas queixas para se alimentar de autopiedade.
Recaídas sempre devem ser esperadas, elas fazem parte do processo, até a completa eliminação na neurose.
IMPORTANTE - Na fase final do tratamento, quando o cliente já há muito tempo está combatendo seus impulsos queixosos de modo independente, e se tenha tornado o seu próprio terapeuta, é preciso vigiar para que a atenção não relaxe. É importante que o paciente leve a sério cada pequeno impulso de sua “criança interna”, porque é sempre possível que este, depois de viver um tempo à beira da morte, somente emitindo fracas queixas, saiba recuperar-se aos poucos e volte de uma vez, com uma intensidade inesperada. Subestimar uma queixa NUNCA é permitido.
IMPORTANTE - Muitos têm a tendência de excluir certas queixas de seu tratamento por hiperdramatização porque justificam o seguinte: “essas são queixas reais, e não infantis”. Não caia nessa. Mesmo que seja um fato real o que foi observado, a criança interna usa da realidade para queixar-se e se alimentar de autopiedade. Todas as queixas devem ser atacadas pela hiperdramatização, até mesmo as queixas fundadas na realidade.
CADA SENTIMENTO NEGATIVO OU DE DESPRAZER tem de ser encarado pelo paciente com suspeita, pois provavelmente esconde uma queixa infantil.
Há queixas infantis que são queixas vagas, sem conteúdo propriamente dito. É um sentimento de ABORRECIMENTO. Isto também é queixa infantil e deve ser atacado pela hiperdramatização: “Pobrezinha de você, criancinha, está aborrecida, é? Sua vida é tão descolorida, e o tédio é tão grande que talvez você, por onde passa, faça até as flores murcharem de tanto aborrecimento; o sol toca em você e fica frio, tamanho o seu tédio, que provavelmente cobrirá os céus e a vida na própria terra há de morrer por culpa sua; você está tão aborrecidinha que fará os passarinhos alegres se enforcarem, que peninha que eu tenho você!”
Nem sempre é preciso hiperdramatizar uma queixa, pois em certas ocasiões o cliente percebe uma queixa infantil facilmente como uma manifestação da autopiedade e isso já faz parar o impulso, porque o adulto, ao perceber isso, já sorri do seu sentimento queixoso infantil e a compulsão, no momento, é eliminada.
Às vezes, um bom método é o paciente repetir as palavras com as quais verbalizou uma queixa, porém com uma voz EXAGERADAMENTE queixosa e dramática. Em certas ocasiões, deve-se repetir isto várias vezes.
Um conselho prático para pacientes que têm dificuldades em observar e verbalizar nitidamente suas queixas é tomar papel e caneta e escrever o que está experimentando. Escrever ajuda a concentração e a conscientização. Hiperdramatizar do mesmo modo pode ser feito através da escrita, pelos mesmos motivos. Por exemplo, o paciente escreve (depois de ter analisado uma queixa infantil qualquer) uma “carta para a minha pobre criança lastimosa”, na qual, naturalmente, seguindo os fundamentos da hiperdramatização, irá lastimar de modo absurdamente grotesco e absurdo à criancinha trágica.
Outra técnica é hiperdramatizar em frente ao espelho. O paciente também pode usar de um gravador.
A HIPERDRAMATIZAÇÃO É A RESPOSTA TERAPÊUTICA AOS QUEIXUMES TRÁGICOS INFANTIS
A hiperdramatização visa a exagerar essencialmente os queixumes infantis, de modo que a própria criancinha trágica interna do passado dê risadas por ver-se ridícula. É preciso matar a criança interna tirando dela o alimento – autopiedade.
