SOBRE A VIDA ESPIRITUAL DA CRIANCINHA

Esta série de textos está apresentando dois autores dos primórdios da psicologia contemporânea: Alfred Adler e Rudolf Allers. Até então, estudamos o estilo de vida, na concepção adleriana, e o caráter, na concepção alleriana. Ambos os conceitos se intercomunicam, alumiando um ao outro. Em textos vindouros, investigaremos como o estilo de vida, de Alfred Adler, está profundamente vinculado à lei de preferências de valores, descrita por Rudolf Allers sob a denominação de caráter. Para que isto nos fique mais claro futuramente, é preciso que compreendamos como o estilo de vida (o caráter) começa a formar-se num indivíduo concreto – e isto se dá na infância, período importantíssimo para a formação caracterológica da pessoa humana.

Adler e Allers defendem que há, na estrutura humana, uma tendência à autoafirmação. O próprio filósofo Spinoza escreve: “Omne ens in suo esse perseverari conatur” – todo ente busca permanecer em seu ser. Essa tendência primitiva à autoafirmação nada mais é do que a pessoa humana, ao longo da vida, afirmando-se nos Domínios do Ser que lhe competem. Afirmamo-nos como 1) seres naturais; 2) seres sociais; 3) seres racionais – aptos a acessar o reino imaterial das Ideias, Verdades e Valores; 4) e seres espirituais – o homem, entre as criaturas sensíveis, é o único Capax Dei (capaz de conhecer a Deus).

Em tese, ao fim do movimento de autoafirmação, tal tendência deveria atingir uma posição absoluta; todavia, objetivamente falando, isto é impossível, uma vez que o ser humano não vive só – cada semelhante busca também a mesma autoafirmação. Porém, subjetivamente, o movimento de autoafirmação busca o absoluto. Escreve Allers: “Subjetivamente e segunda à vivência, a direção da autoafirmação se orienta, sem dúvida, para esta meta de uma posição absoluta. No interior do mundo humano ambiente, essa tendência à autoafirmação e à autoconservação toma, pois, uma forma bem específica, que pode ser designada, de modo mui expressivo, pela denominação que a ‘Psicologia Individual’ de Adler tirou de Nietzsche: vontade de poder.”.

É a vontade de poder que tende, em cada coração humano, ao infinito. Porém, as forças inanimadas da natureza, a organização humana, a própria estrutura da vida comum, a religião, a consciência moral, as tradições, a família, os costumes, as leis e nossos semelhantes impõem, naturalmente, a necessária limitação à vontade de poder individual. Entretanto, a vontade de poder é uma tendência original; por conseguinte, pertence ao âmago da natureza humana. Se assim o é, tal tendência também se manifesta na infância. É preciso notar o seguinte: a vontade de poder não é, em si mesma, algo deletério; pelo contrário, se corretamente ordenada, será o mais importante elemento para a formação caracterológica da criança.

Este longo preâmbulo que antecede à descrição da vida espiritual da criancinha foi necessário porque o estilo de vida, o qual se cristaliza até os cinco anos, segundo Adler, tem que ver fundamentalmente com a vontade de poder infantil, a qual será influenciada pelo AMBIENTE em que os pequeninos se desenvolvem. Há quatro vivências espirituais da criancinha elencadas por Rudolf Allers que, digamos assim, lhe contrariam a vontade de poder, podendo conduzi-la a uma intensa vivência de depreciação do valor próprio. O perigo de tais vivências de desvalor é que podem deformar o caráter infantil, o qual somente poderá ser corrigido muito tempo depois, com grandes esforços, e muitas vezes sem sucesso.

A primeira vivência espiritual de depreciação do valor próprio é a pequenez da criança. Sua baixa estatura a leva, incessantemente, a olhar para cima. Desponta-lhe na psique, então, uma vivência de inferiorização de si, a qual, obviamente, não atinge representação racional alguma, pois estamos tratando de crianças muito pequenas, de até cinco anos de idade. Todavia, os sentimentos de inferioridade são as primeiras marcas dos esquemas aperceptivos citados anteriormente nesta página nos textos referentes ao estilo de vida. Os pais são gigantes Adamastores e o próprio universo que rodeia a criancinha, um colosso insuperável.

Essa percepção infantil de inconquistabilidade do ambiente, até de hostilidade, deve ser mitigada o máximo possível pela presença materna e paterna. Toda a esquemática aperceptiva da infância – a maneira inconsciente pela qual a criança julga o sentido finalístico da vida, as intenções com as quais ela abordará os problemas oriundos das três dimensões da vida humana, sua configuração emocional e cognitiva enquanto expressão dos propósitos finalísticos do seu estilo de vida/caráter, o maior ou menor grau de tendência à cooperação com o próximo –, toda essa esquemática aperceptiva da infância baseia-se numa realidade dicotômica alicerçada em experiências de insegurança/incerteza e segurança/certeza.

A pequenez da criancinha, junto com suas outras três vivências espirituais que descreverei no próximo texto, gera na psique infantil, a princípio, uma profunda insegurança; logo, uma intensa vivência de inferiorização de si, no sentido de desvalor. Devem os pais, então, pelo contrário, oferecer o máximo possível de segurança a ela. Muitas vezes assisto a filmagens de sujeitos que, por brincadeira, assustam os próprios filhos. Os adultos, e principalmente os pais, por serem o principal porto-seguro da criança, JAMAIS devem pregar sustos aos pequeninos, porquanto é duplo o prejuízo em sua formação caracterológica. Aquelas pessoas que até então transmitiam-lhes segurança tornaram-se as responsáveis por gerar nelas vivências de inferiorização de si. É traição.

Mesmo que as crianças não alcancem o conceito intelectual de traição, sofrem-na psiquicamente. A pequenez da criancinha com as três outras vivências espirituais de desvalor que estudaremos no próximo texto – fraqueza do corpo, incerteza do conhecimento e impressão de imprevisibilidade a respeito da estabilidade do mundo – são experiências conformadores do estilo de vida ou do caráter. As consequências das vivências de depreciação e os tipos caracterológicos formados por elas serão analisados futuramente. O que importa, agora, é que compreendamos como se forma o caráter de alguém. A vontade de poder e o modo como essas vivências de desvalor são experimentadas têm papel fundamental.