Neste subcapítulo que estamos estudando da obra Psicologia do Caráter, de Rudolf Allers, o autor alicerça-se em muitas observações e percepções de Alfred Adler concernentes ao que podemos chamar de uma psicologia do desenvolvimento infantil. Tanto o ambiente em que se desenvolve a criança quanto suas iniciais características biológicas e cognitivas lhe influenciam a formação caracterológica primeira – é a fixação do estilo de vida, que ocorre por volta dos cinco anos de idade.
Os quatro momentos fundamentais descritos por Rudolf Allers e que distinguem a maneira pela qual o ambiente atua na vivência interior das crianças são os seguintes:
1 – A pequenez da criança
2 – A fraqueza corporal da criança
3 – A incerteza do conhecimento da criança
4 – A impressão de imprevisibilidade acerca do mundo
Todos estes quatro momentos geram, necessariamente, vivências de desvalor que, se não corretamente remediadas, marcam desastrosamente a psique infantil. Logo de início, a vontade de poder da criança, devido aos sentimentos de inferioridade oriundos dos quatro momentos acima elencados, é experimentada como algo condenado ao insucesso.
Porém, alerta-nos Allers, de maneira alguma deveria a vontade de poder ser avaliada negativamente, uma vez que tal tendência é ontológica ao homem – vimos isto no texto anterior. Quando dirigida para um fim justo, a vontade de poder é uma eficaz força impulsiva que permite o desenvolvimento da pessoa humana a nível físico, emocional, social, moral, cultural e intelectual.
A pequenez da criança a obriga sempre a olhar para cima. Manifestam-se, então, as primeiras vivências de inferioridade. Por isso, é importante que o adulto, muitas vezes, ao instruí-la ou mesmo ao repreendê-la, realize o caridoso movimento de abaixar-se em direção a ela, de modo que o infante passe da clave da insegurança para a da segurança.
Quando o adulto, ao dirigir-se à criança, principalmente no exercício de sua autoridade sobre ela, abaixa-se, a criança entende (ainda que não racionalmente) que esse poder superior que sobre ela é exercido não é hostil, e sim benévolo. Por conseguinte, mitiga-se a vivência de inferioridade através da confiança. Ao invés de experienciar uma vivência de depreciação, a criança vivencia experiências de valor próprio.
Em relação à fraqueza do corpo, o problema vincula-se, precipuamente, à questão da vontade de poder. Pelo fato de o corpo das criancinhas ser demasiado fraco, a multiplicidade de esforços que realizam para superar os obstáculos que o mundo lhes impõe confirma para elas, sucessivamente, uma retumbante percepção de insuficiência.
Tentam as crianças impor sua vontade de poder sobre o universo – ainda que meramente o universo doméstico – e o resultado, quase sempre, é o fracasso. Inclusive, os adultos muitas vezes reforçam nos pequeninos a constatação da impotência própria.
A excessiva condescendência com a criança traduzida em palavras que lhe apontam, de modo superprotetor e vexatório, a fraqueza corporal, o vangloriar da força adulta diante das insuficiências infantis, o escárnio sutil diante da vontade de poder malograda da criança, são atitudes que os adultos devem ao máximo evitar, pois somente ampliam no coração do infante, pelas vivências de depreciação do valor próprio, os sentimentos de inferiorização de si.
Nunca esqueçamos que a vida infantil acontece na dicotomia entre insegurança-incerteza e segurança-certeza. Precisamos, a todo custo, que as esquemáticas aperceptivas da incipiente formação caracterológica da criancinha se deem através de vivências do valor próprio por meio da segurança e da certeza – principalmente a certeza de que é amada e protegida pelos pais, pois é a experiência do amor parental a responsável por fechar o contorno afetivo da criança, por trazer-lhe a percepção de que há estabilidade no mundo e nas relações sociais, por fazê-la vivenciar não a depreciação e inferiorização de si, senão o valor de si, retificando os iniciais desvios de sua vontade de poder. Trataremos, no próximo texto, as consequências da incerteza do conhecimento infantil
Além da pequenez e da fraqueza corporal da criancinha, a incerteza do conhecimento é a terceira vivência de depreciação infantil apontada por Rudolf Allers. Abro aspas para ele. “Desde cedo, tenta a criança adquirir leis gerais e construir conceitos universais, seguindo assim uma predisposição geral do homem. Ela o faz, como o adulto, baseando-se principalmente em analogias. Mas estas se prendem necessariamente, na maioria dos casos, ao que é acidental e, por isso, logo se mostram enganadoras.”
Dá-nos elucidativo exemplo o autor: alguém apresenta ouro à criança, descrevendo-o como metal precioso, de inestimável valor, amarelo e brilhante. Dias depois, ao deparar-se, por exemplo, com latão, a criança acredita ser ouro, e logo é corrigida. Que ocorreu? O intelecto dos pequeninos encontra enormes dificuldades para, no processo gnosiológico, distinguir o que é propriamente acidente do que é propriamente essência.Aos pequenos, qualquer metal amarelo e brilhante é ouro. A consequência de tais surpresas é uma espécie de abalo que a criança sofre a respeito da certeza do seu conhecimento. Torno a ressaltar que as formatações iniciais do caráter infantil se dão entre a dicotomia de insegurança-incerteza e segurança-certeza.
Quando a criança percebe que o conhecimento que adquire sobre a realidade é incerto, passível de inúmeros erros e dificuldades, ainda que tal percepção não se dê a nível racional, ocorre, em sua vivência interior, experiências de desvalor próprio. Os esforços intelectivos arduamente realizados (enquanto gasto emocional) no intuito de apreender o misterioso ambiente circundante mostraram-se não apenas insuficientes, mas inconfiáveis. E a incerteza a respeito do próprio conhecimento leva a criança, devido aos sentimentos de inferiorização que dela proliferam, à impressão de imprevisibilidade do mundo.
Allers explica que a crença infantil no maravilho decorre, diretamente, dessa percepção de imprevisibilidade do mundo, e escreve que “as regularidades, que nos parecem naturais e invioláveis, não têm, de modo algum, esse caráter, para a criança... Essa descrença no firme valor das leis do universo é ainda mais fortalecida pelas atitudes dos adultos. ‘Nunca se pode saber – disse-me, em confidência, uma garota de oito anos – o que farão as pessoas crescidas.” Justamente em decorrência dessa impressão de imprevisibilidade é que o educador deve atentar-se, maximamente, a jamais agir de modo ilógico com a criança, pois isto pode exercer deletéria influência na formação do seu caráter.
Chegamos ao fim das quatro vivências fundamentais de depreciação descritas por Allers. Tais vivências geram efeitos na formatação do caráter das crianças. É preciso que os adultos que as rodeiam, e principalmente os pais, equilibrem tais vivências de depreciação de si por meio da geração de experiências do valor de si nos pequeninos. É imperioso recordar que é o correto desenvolvimento de uma tendência ontológica que aqui está em jogo – a vontade de poder.
A incerteza que penetra toda vida da criança, ainda que nem sempre seja vivenciada por ela de modo consciente, combinada com a ambiência infantil, com a pequenez do seu corpo, com sua fraqueza corporal, com a incerteza do seu conhecimento e a impressão de imprevisibilidade do mundo, são elementos os quais, na interioridade dos pequeninos, têm grande influência no desvirtuamento de sua vontade de poder, pois são para ela manifestações hostis. Justamente por isso, para uma criança, sua vontade de poder é experimentada como algo fadado ao insucesso.
Comenta Allers: “Há aqui uma tragédia: porque a vontade de poder, de autoafirmação e de autodesenvolvimento da pessoa não pode, de maneira alguma, ser avaliada negativamente. Dirigida para um fim justo, ela é, por certo, a grande força impulsiva que permite o desenvolvimento pessoal, histórico e cultural. Há, pois, em cada caso, o perigo de que a vivência da limitação do desenvolvimento do poder não só impeça a exuberância daquela vontade (que se manifesta em formas novas de evolução moral e cultural), como também abale os fundamentos de toda a produção positiva e de todo o progresso, no sentido de um desenvolvimento ético e pessoal”.
Por isso estão errados os pais que acreditam que a vontade de poder de seus filhos “deve ser quebrada” no intuito de que as más inclinações sejam, desde os primórdios do desenvolvimento infantil, coibidas. Entretanto, sem o correto desenvolvimento dessa tendência, uma vida ética, por exemplo, malogrará, uma vez que, para lutar pelo Bem e para resistir ao Mal, a vontade de poder é necessária. Pais que não auxiliam o desenvolvimento reto e ordenado da vontade de poder de seus filhos contribuem para formações caracterológicas deficientes.
Doravante, exploraremos as consequências que as vivências de depreciação geram nas formações caracterológicas dos infantes. Tais vivências são de dois tipos – a primeira é uma vivência de depreciação corporal, a segunda situacional. Tudo aquilo que aumenta a insegurança da criança, de modo que lhe prejudique a vivência do próprio valor, é considerado, pela psicologia individual de Alfred Adler, uma vivência de depreciação.
