Conforme explicado nos textos anteriores – “Sobre a vida espiritual da criancinha” –, muitas são as experiências por que uma pequenina alma passa e que lhe prejudicam a vivência do próprio valor. O resultado é um agravamento ou intensificação do sentimento de insuficiência. Alfred Adler, em sua Psicologia Individual, denominou as experiências de inferiorização da criança sob o título de “vivências de depreciação” – depreciação do valor de si, bem entendido.
Conforme estudamos a respeito da formação da conduta, toda ação se estabelece através de uma ligação entre o eu e o não-eu, baseada num conhecimento relacional que é, ao fim e ao cabo, uma comparação valorativa. A própria depreciação de si parte do pressuposto de que seja percebida a relação para um valor. É a partir da percepção valorativa que as criancinhas se avaliam como possuidoras de maior ou de menor valor. O fundamento da vivência de depreciação é um conhecimento de relação valorativa, portanto.
Os leitores que assimilaram o conteúdo das publicações anteriores perceberam o quão frágil é a existência psíquica de uma criança. Ela é pequena, fraca, incerta de seu conhecimento e vive sob o jugo da impressão de imprevisibilidade do mundo. Tais características da vida infantil acentuam enormemente e aprofundam a vivência de depreciação, reforçando a sensação de insegurança de que naturalmente padecem. Observa Allers: “Gera-se, assim, um círculo fatal que, em casos demasiado numerosos, conduz a profundas distorções de caráter, que só podem ser anuladas mais tarde com esforço e nem sempre com certeza.”.
Conforme pontuado inúmeras vezes, toda a vida infantil se dá em dois polos: o da insegurança-incerteza e o da segurança-certeza. As vivências de depreciação intensificam a percepção do primeiro polo. Veremos, mais a frente, como há pessoas cujo caráter é dominado completamente pelo medo. E o medo mórbido, como precípuo traço caracterológico, é o resultado de uma deficiência cognitiva causada, justamente, pela insegurança - e são as vivências de depreciação do valor de si, o sufocamento da vontade de poder dos pequeninos, que lhes intensificam a percepção de incerteza e insegurança.
Há duas realidades que aumentam a incerteza na vida dos pequenos e que são responsáveis por aumentar sua vivência de depreciação infantil: a condição pessoal (física) da criança e o ambiente em relação a ela. Nesta publicação vou tratar da condição corporal do infante.Antes, é importante ressaltar que não se trata aqui de um determinismo. Ou seja, que as crianças com deficiências corporais ou adoentadas desenvolverão, necessariamente, um caráter desviado ou anormal. Tudo dependerá da educação que recebe, do ambiente em que vive, e da atitude dos pais, as quais deverão, ao invés de intensificar na criança o desvalor de si, aprimorar-lhe tal valor.
Deve o leitor lembrar-se de que é ontológica (inerente à natureza humana) a tendência à autoafirmação, e de que a vontade de poder é importante fator no desenvolvimento caracterológico – tanto sadio quanto desviado. O fato é que o corpo, como bem frisa Rudolf Allers, é “o instrumento de que se serve a pessoa em sua luta pela autoafirmação”. Ao conhecimento, diga-se assim, intuitivo das condições e capacidades de produção do próprio corpo, dá-se o nome de consciência vital, responsável por conferir todo o colorido de nossa vivência, a qual é perpassada, na multiplicidade de seus atos e momentos, por essa mesma consciência vital.
Justamente em razão disso, todas as debilidades constitutivas, todas as fraquezas do corpo, todas as deficiências dos órgãos, toda escassez de vitalidade, toda desarmonia das condições corpóreas, toda anormalidade, quer debilitante, quer vexaminosa, são responsáveis pela diminuição, no ser humano, da segurança da vida. Tais insuficiências resultam numa profunda dor da consciência vital, o que leva o indivíduo a ter conhecimento de sua exígua força de resistência diante das coisas árduas da vida – e tal conhecimento é um conhecimento de depreciação.
“Mas o correspondente subjetivo de tal conhecimento e incerteza apresenta-se como uma falta de coragem, ou melhor, como um desalento”, observa Allers. Aqui, ele já está demonstrando como a condição corporal pode gerar certos traços de caráter. No caso, traços como a timidez, a covardia, a insegurança nas horas de impor-se, a incapacidade de atacar de forma resolutiva um problema etc. É preciso ressaltar que toda deformidade constitucional relativa ao corpo prejudicará o desenvolvimento normal do caráter, caso as crianças que possuem tais insuficiências orgânicas não forem corretamente auxiliadas pela educação, pelos pais e, inclusive, pelos meios em que se desenvolvem – como a escola.
Se a experiência da corporeidade influencia a formação caracterológica, e se as debilidades corporais intensificam a vivência de depreciação, é muito importante que o bullying seja combatido com a máxima seriedade e eficácia. A consequência mais alarmante do bullying é que a criança que o sofre padecerá gravíssimas vivências de depreciação. O dano emocional é o dano da depreciação do valor de si. E quanto mais vivência de depreciação, mais deformado se tornará o caráter da vítima. Então, o verdadeiro problema do bullying é que ele promove a formação de caracteres anormais através do desvalor de si que impõe às vítimas.
